O Amapá registrou, em 2025, a terceira maior taxa de estupro de vulnerável do Brasil, com 56,91 ocorrências por 100 mil habitantes, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. O estado ficou atrás apenas de Roraima e Rondônia, em um ranking que foi dominado por estados da Região Norte.
O dado, isoladamente, já é preocupante. Mas ele ganha outra dimensão quando colocado ao lado da realidade encontrada diariamente pela rede de proteção do estado: crianças e adolescentes chegando aos serviços públicos depois de sofrer violência sexual, muitas vezes dentro do próprio ambiente familiar ou em relações nas quais deveria existir proteção.
No Brasil, foram registrados 57.329 casos de estupro de vulnerável em 2025, correspondendo a 71% dos 80.605 estupros registrados no país. Pela legislação, enquadram-se nessa categoria, entre outras situações, os crimes contra pessoas menores de 14 anos.
O problema, portanto, não é apenas o número de ocorrências. É entender quem são essas vítimas, quem está ao redor delas e por que tantas situações permanecem escondidas durante tanto tempo.
No Amapá, a rede de saúde confirma o tamanho do problema
Os registros do Serviço de Atendimento a Vítimas de Violência Infantil (Savvi), do Hospital da Criança e do Adolescente (HCA), ajudam a dimensionar a situação.
Em 2025, o serviço realizou 117 atendimentos relacionados a diferentes formas de violência, contra 102 em 2024. Do total registrado no ano passado, 63 atendimentos, ou 53,8%, estavam relacionados a abuso sexual.
A maior parte das vítimas de violência sexual atendidas pelo serviço estava na faixa de 10 a 12 anos.
O número não deve ser confundido com o total de estupros registrados no Amapá. O Savvi trabalha com casos de violência infantil que chegam ao serviço de saúde, enquanto as estatísticas policiais contabilizam ocorrências criminais. São bases diferentes e, por isso, não podem ser simplesmente somadas.
Mas existe um ponto em comum: as duas fontes mostram que a violência contra crianças e adolescentes não é um problema pontual.
E existe outro dado que merece atenção. Segundo a equipe do HCA, muitos dos casos atendidos acontecem dentro do ambiente familiar.
É justamente aí que a discussão fica mais difícil.
O perigo nem sempre está do lado de fora
Durante muito tempo, a prevenção da violência sexual contra crianças foi associada quase exclusivamente ao cuidado com estranhos.
Os casos investigados pela Polícia Civil no Amapá mostram uma realidade mais complexa.
Em fevereiro, por exemplo, a Polícia Civil de Santana prendeu um homem investigado por estupro de vulnerável contra uma criança de 8 anos. Segundo a investigação, ele era companheiro da avó da vítima e teria utilizado a relação de confiança para aliciar a criança, inclusive oferecendo pequenas quantias em dinheiro.
Em março, uma operação em Mazagão levou à prisão de três homens investigados por estupro de vulnerável. Segundo a Polícia Civil, as investigações envolviam práticas reiteradas contra vítimas menores de 14 anos, dentro de contexto de violência doméstica e familiar.
Em abril, outro caso chamou atenção em Macapá. Um homem foi preso após condenação por crime praticado contra um menino que tinha 5 anos à época.
Em junho, a Polícia Civil prendeu um homem condenado por abusar da enteada. Segundo as investigações, a violência teria começado quando a vítima tinha apenas 6 anos e continuado até os 12. O caso só chegou ao conhecimento da família depois de anos.
No mesmo mês, em Cutias do Araguari, um homem foi preso sob investigação de abuso contra adolescentes que eram enteadas e sobrinha dele. O caso também teria surgido a partir de informações encaminhadas ao Conselho Tutelar.
Os episódios não representam, sozinhos, uma estatística estadual. Mas formam um retrato preocupante de como esses crimes podem acontecer: dentro de casa, entre parentes, vizinhos, conhecidos ou pessoas que possuem acesso cotidiano à criança.
Quando a criança demora para contar
Outro aspecto recorrente nos casos de violência sexual infantil é o tempo entre o abuso e a revelação.
Em dezembro de 2025, a Polícia Civil do Amapá divulgou o caso de uma menina de 12 anos que teria sofrido abusos reiterados cometidos pelo próprio tio. Segundo a investigação, os episódios começaram meses antes de a vítima conseguir revelar à mãe o que estava acontecendo.
Em situações assim, o silêncio não pode ser interpretado como consentimento, aceitação ou ausência de sofrimento.
Crianças podem não compreender inicialmente que estão sendo vítimas de um crime. Podem sentir medo, vergonha, culpa ou receio de não serem acreditadas. Quando o agressor faz parte da família ou possui uma relação de autoridade, a dificuldade de revelar pode ser ainda maior.
Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “por que essa criança não contou?”.
Também é preciso perguntar:
Quem estava preparado para perceber?
O comportamento pode mudar antes da denúncia
Não existe um único comportamento que confirme que uma criança sofreu abuso. Entretanto, mudanças repentinas e persistentes merecem atenção.
Entre os sinais que podem aparecer estão:
- alteração brusca de humor ou comportamento;
- solamento repentino;
- medo de determinada pessoa ou de permanecer em determinado local;
- pesadelos frequentes e alterações no sono;
- queda no desempenho escolar;
- ansiedade ou crises de choro;
- regressão comportamental, como voltar a fazer xixi na cama;
- comportamento sexual incompatível com a idade;
- resistência incomum ao contato com determinada pessoa;
- queixas físicas recorrentes sem explicação clara;
- mudanças significativas na alimentação ou na rotina.
- Nenhum desses sinais, sozinho, prova a existência de abuso.
O alerta surge principalmente quando existe uma mudança significativa no comportamento habitual da criança, especialmente se ela demonstra medo de alguém ou tenta evitar determinada situação.
O que fazer quando a criança fala
Quando uma criança revela uma situação de violência, a primeira reação do adulto pode fazer diferença.
É importante ouvir com calma, acolher e deixar claro que ela não tem culpa pelo que aconteceu.
Perguntas insistentes, acusações ou frases como “por que você não contou antes?” podem fazer com que a criança se cale novamente.
Também não é recomendável tentar investigar sozinho ou confrontar imediatamente o possível agressor. O caso deve ser encaminhado à rede de proteção para que a criança seja atendida e a investigação seja conduzida pelas autoridades competentes.
A proteção precisa vir antes da tentativa de descobrir todos os detalhes.
Não é apenas uma questão de polícia
Prender o agressor é fundamental. Mas não resolve sozinho um problema dessa dimensão.
A violência sexual contra crianças exige uma rede que funcione antes, durante e depois da denúncia.
Isso envolve família, escola, saúde, assistência social, Conselho Tutelar, Polícia Civil, Ministério Público e Justiça.
Também envolve acompanhamento psicológico, proteção da vítima, atendimento médico quando necessário e condições para que a criança não seja submetida novamente ao trauma ao longo do processo.
O próprio HCA destaca que o atendimento às vítimas precisa considerar não apenas a condição física, mas também o contexto social e emocional da criança.
Essa é uma questão central: não basta retirar a criança de uma situação de violência se ela continuar desprotegida depois da denúncia.
E os números de 2026?
Há uma limitação importante para quem pretende fazer uma leitura precisa do cenário atual.
O Mapa da Segurança Pública 2026, do Ministério da Justiça e Segurança Pública, passou a incluir o estupro de vulnerável entre os indicadores nacionais e reúne dados enviados pelas 27 unidades da Federação.
Porém, a base pública disponível não permite, neste momento, afirmar com segurança quantos casos de estupro de vulnerável foram registrados especificamente em agosto de 2026 no Amapá ou qual é o acumulado fechado de janeiro até agosto.
Por isso, não seria responsável transformar os casos divulgados pela Polícia Civil neste mês em um número oficial de ocorrências estaduais.
O que já pode ser afirmado é que o Amapá está entre os estados com as maiores taxas do país e que a rede estadual de proteção continua recebendo vítimas de violência sexual.
Nos primeiros meses de 2026, o HCA já havia registrado mais de 40 atendimentos relacionados a diferentes formas de violência infantil.
Um problema amazônico
O alerta não é exclusivo do Amapá.
Um estudo do UNICEF e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública mostrou que seis dos dez estados brasileiros com maiores índices de violência sexual contra crianças e adolescentes estão na Amazônia Legal.
Entre 2021 e 2023, a região registrou mais de 38 mil casos de estupro envolvendo vítimas de até 19 anos. Em 2023, a taxa regional chegou a 141,3 casos por 100 mil crianças e adolescentes, 21,4% acima da média nacional de 116,4.
Os dados colocam a violência sexual infantil como um problema que precisa ser discutido também a partir das particularidades amazônicas: distância entre municípios, dificuldade de acesso a serviços especializados, desigualdades sociais, áreas rurais e comunidades isoladas e a necessidade de fortalecer a presença da rede de proteção.
O silêncio também precisa ser enfrentado
O Amapá não precisa de mais uma sequência de casos chocantes para reconhecer que existe um problema.
Precisa olhar para os números, fortalecer os serviços, melhorar a prevenção e garantir que uma criança tenha segurança para falar e principalmente, que seja acreditada e protegida quando falar.
Porque, quando uma criança precisa esperar anos para revelar uma violência, o problema não está apenas no crime cometido.
Está também no silêncio que permitiu que ele continuasse.
Como denunciar
Suspeitas de violência contra crianças e adolescentes podem ser comunicadas aos órgãos da rede de proteção, como Conselho Tutelar, Polícia Civil e Ministério Público.
O Disque 100 também recebe denúncias de violações de direitos humanos e pode ser utilizado para comunicar situações envolvendo crianças e adolescentes.
Em situações de risco imediato, a orientação é procurar ajuda das autoridades e garantir que a criança seja retirada do ambiente de perigo.