“Eu não tive opção: ou eu passava parte da terra ou morria.” O relato de um proprietário rural, que não quis ser identificado por medo de represálias, revela o drama vivido por pessoas que teriam sido ameaçadas para abrir mão de suas propriedades em Rondônia.
Segundo a vítima, homens a pressionaram a negociar parte da terra e fizeram ameaças depois que ela recusou a proposta inicial. Com medo de sofrer violência, o proprietário acabou cedendo parte da área em uma negociação formalizada como compra e venda.
O depoimento integra o contexto investigado pela Operação Godos, deflagrada em novembro de 2025 pelo Ministério Público de Rondônia (MPRO). A investigação apura a atuação de uma organização criminosa suspeita de utilizar violência para obter terras, explorar ilegalmente madeira e movimentar dinheiro de origem ilícita.
Uma investigação de grandes proporções
As apurações começaram em setembro de 2022, a partir de informações sobre a atuação de um grupo organizado e violento na zona rural de Porto Velho. O trabalho foi conduzido pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco), com apoio do Núcleo de Análises Técnicas e de promotorias de Justiça.
Após anos de investigação, a operação mobilizou mais de 500 profissionais e cumpriu mandados em Rondônia, Mato Grosso, Amazonas e Pará. Foram expedidos 50 mandados de prisão temporária e 120 de busca e apreensão.
O promotor de Justiça Anderson Baptista de Oliveira, coordenador do Gaeco, destacou a dimensão histórica da ação para a instituição.
“Essa é a maior operação já realizada pelo Ministério Público de Rondônia, por vários fatores, o primeiro deles é a quantidade de material analisado, levantamentos e áreas afetadas entre outros”
Terras, desmatamento e movimentação milionária
De acordo com o Ministério Público, a investigação identificou cerca de 25 mil hectares de desmatamento ilegal na região, área equivalente a aproximadamente 35 mil campos de futebol. Também foram apuradas suspeitas de exploração ilegal de madeira, abertura de estradas e comercialização de áreas.
Na frente financeira, o levantamento inicial apontou movimentações superiores a R$ 110 milhões entre 2020 e 2025. Posteriormente, segundo o coordenador do Gaeco, o valor identificado ultrapassou R$ 129 milhões.
A Justiça também determinou medidas patrimoniais que somavam mais de R$ 2 bilhões na deflagração da operação, considerando valores relacionados aos danos materiais, ambientais e climáticos e ao produto dos crimes. Esse montante não significa que todo o valor tenha sido recuperado pelo poder público.
O trabalho continua
A análise dos celulares apreendidos abriu novas frentes de investigação. Segundo o Ministério Público, foram identificados indícios de vazamento de informações sigilosas, o que levou ao aprofundamento das apurações sobre possível obstrução da investigação em 2026.
O Gaeco também continuou acompanhando a ação penal relacionada à Operação Godos, com possibilidade de novos desdobramentos a partir da análise das provas.
O relato da vítima revela o impacto humano das suspeitas investigadas. Para quem vive e trabalha no campo, a ameaça de perder a própria terra pode significar também perder a tranquilidade e passar a viver sob medo.
A investigação busca esclarecer como o grupo teria atuado e identificar as responsabilidades individuais. O caso segue sujeito à análise judicial, com respeito ao direito de defesa e à presunção de inocência.
