A Amazônia enfrenta uma escalada de temperaturas extremas que já atinge regiões ainda preservadas da floresta. Um estudo realizado por 53 cientistas do Brasil e do exterior aponta que, entre 1981 e 2023, as temperaturas máximas extremas aumentaram mais de 3,3°C em uma faixa que se estende do centro do Amazonas em direção a Roraima.

A região representa cerca de 10% de toda a Amazônia e inclui áreas de floresta contínua, terras indígenas e unidades de conservação, como o Parque Nacional do Jaú, no Amazonas.
Segundo a pesquisa, enquanto a temperatura média da Amazônia aumentou cerca de 0,21°C por década, as temperaturas extremas cresceram aproximadamente 0,5°C por década. Na área mais afetada, durante o período seco, o aumento chegou a 0,77°C por década.
O resultado chama atenção porque o avanço das temperaturas ocorre justamente em locais onde o desmatamento ainda é relativamente baixo. Para os pesquisadores, isso demonstra que a mudança climática já representa uma ameaça direta à floresta, independentemente da retirada da vegetação.
Impactos na fauna e nas comunidades
Os efeitos já são observados em campo. Durante uma pesquisa realizada no Parque Nacional do Jaú, em 2024, o biólogo Cássio Alencar Nunes registrou temperaturas superiores a 30°C logo às 7h da manhã. O calor e a seca foram acompanhados por um silêncio incomum na floresta, com redução da atividade de aves e insetos.
Moradores da região também relatam mudanças no ciclo dos rios, redução na produção de castanhas e mortes de peixes. A alteração do clima afeta ainda atividades como turismo, pesca e agricultura.
A pesquisadora Joice Ferreira, da Embrapa Amazônia Oriental, alerta que o aumento das temperaturas pode provocar estresse fisiológico nas árvores, elevar a mortalidade da vegetação e reduzir a produção de frutos importantes para as comunidades locais.
Floresta mais vulnerável ao fogo
Outro efeito preocupante é o aumento do risco de incêndios. Com temperaturas mais altas e menor umidade, a floresta fica mais inflamável.
Em 2024, a Amazônia registrou 15,6 milhões de hectares queimados, segundo levantamento do MapBiomas. O número representa uma área 117% acima da média histórica e foi marcado por uma mudança importante: as florestas em pé representaram 43% da área queimada.
Os pesquisadores afirmam que combater apenas o desmatamento não é mais suficiente. Além da redução das emissões globais de gases de efeito estufa, são necessárias políticas de adaptação, prevenção de incêndios e proteção das populações que vivem na floresta.
O estudo, liderado por pesquisadores da Universidade de Lancaster, no Reino Unido, ainda passa por revisão por pares e foi divulgado em formato de pré-print. A pesquisa foi apresentada no contexto das discussões sobre mudanças climáticas que antecederam a COP30, realizada em Belém.
Fonte: Ambiental Media