A pessoa abre o aplicativo, vê a dívida, encontra uma opção de parcelamento e pensa: “Vou fechar logo esse acordo para limpar meu nome.”
Só que eu quero fazer um alerta: nem sempre pagar correndo é a melhor decisão financeira.
Calma. Eu não estou dizendo para ninguém deixar de pagar suas dívidas.
Estou dizendo para não negociar no desespero.
Porque uma dívida mal negociada pode virar outra dívida.
Antes de pagar, faça uma conta
Imagine que você tenha uma dívida de R$ 10 mil.
O credor oferece um parcelamento aparentemente confortável e você aceita olhando apenas para o valor da prestação.
Esse é um erro muito comum.
Eu sempre recomendo olhar três números:
Quanto estou devendo? Quanto vou pagar no total? Quanto consigo pagar sem comprometer novamente meu orçamento?
Parcela pequena não significa negócio bom.
“Mas apareceu um desconto enorme!”
Ótimo. Agora faça as contas.
Em determinadas situações, credores oferecem descontos bastante expressivos para receber uma dívida em atraso.
Mas não existe regra dizendo que o desconto de hoje será maior amanhã.
Esperar pode resultar numa proposta melhor? Pode.
Mas a oferta também pode mudar ou desaparecer.
Por isso, minha orientação não é simplesmente “espere para pagar mais barato”.
É: prepare-se para negociar melhor.
Dinheiro na mão muda a conversa
Aqui está uma estratégia que muita gente esquece.
Se você não consegue assumir um acordo agora sem apertar novamente seu orçamento, talvez seja melhor primeiro organizar suas contas e formar uma reserva específica para negociar as dívidas.
R$ 300, R$ 500, R$ 1.000 por mês. O valor dependerá da realidade de cada família.
Quando você acumula dinheiro para uma negociação, passa a ter uma arma importante: poder de pagamento à vista.
E dinheiro disponível pode aumentar muito sua capacidade de negociação.
Não tente apagar todos os incêndios ao mesmo tempo
Se você tem cinco dívidas, não saia fazendo cinco parcelamentos apenas para ver seu CPF limpo.
Coloque tudo no papel.
Cartão de crédito. Empréstimo. Cheque especial. Financeira. Banco. Loja.
Veja o saldo de cada dívida, as condições oferecidas, os descontos, o custo do parcelamento e as consequências de continuar inadimplente.
Depois estabeleça prioridades.
Negociar dívida também é escolher qual problema resolver primeiro.
E cuidado com uma armadilha
Tem gente que consegue limpar o nome e, algumas semanas depois, começa tudo novamente.
Cartão novo.
Limite novo.
Parcelamento novo.
Empréstimo novo.
E quando percebe, está endividada outra vez.
Por isso eu digo: o objetivo não pode ser apenas limpar o nome. O objetivo precisa ser recuperar sua vida financeira.
São coisas diferentes.
Eu sou economista e trabalho há muitos anos com crédito. E aprendi uma coisa importante nesse mercado:
crédito não é dinheiro extra. É dinheiro do futuro sendo usado hoje.
Se você está endividado, não negocie com vergonha e muito menos com desespero.
Abra as contas. Veja quanto realmente consegue pagar. Compare as propostas. Negocie. E só assuma um acordo que consiga cumprir até o final.
Porque uma dívida de R$ 20 mil bem negociada pode ser um problema com solução.
Mas uma dívida mal negociada, somada a novos empréstimos e cartões, pode se transformar em uma bola de neve.
Antes de correr para limpar o nome, organize o bolso.
Seu CPF pode ficar limpo em poucos dias.
Sua vida financeira precisa continuar saudável depois disso.
Marcus Evangelista
Economista