O bairro do São Jorge, com suas ruas estreitas e moradores de longa data, acordou na última segunda-feira não com o canto dos pássaros ou o barulho do pão quente, mas com o silêncio fúnebre de uma barbárie. Dentro de uma casa que deveria ser um porto seguro, três pessoas foram esmagadas pela crueldade: o professor da Ufam, Guilherme Pereira (66); o pastor Francisco das Chagas (81); e a filha do pastor, Isabella Coelho (29), uma jovem com deficiência intelectual que só conhecia a pureza.
A mãe dela, Dilma Cilene, sobreviveu por um milagre e trava uma guerra pela vida numa UTI de Manaus. O cobrador dessa fatura sangrenta? Ezenilson Silva, o ex-genro. O homem que um dia sentou à mesa com essas pessoas confessou ter entrado na casa, de madrugada, armado com um martelo. O motivo alegado por ele é um soco no estômago da nossa sociedade: uma dívida de quase R$ 20 mil com agiotas. Ele pediu ajuda ao pastor. Ao ouvir um “não”, Ezenilson decidiu que, se a sua vida estava penhorada, a daquela família também estaria. A ferramenta que serve para construir casas, foi usada para demolir uma família inteira, crânio por crânio, enquanto dormiam.
Esqueça os números complicados dos códigos de lei por um momento. O que aconteceu ali, na linguagem clara da Justiça, orbita entre o roubo seguido de morte (o famoso Latrocínio) e o homicídio qualificado pela maior das covardias. A lei é dura e tem que ser. Não há justificativa para bater o martelo na cabeça de pessoas indefesas. A covardia dele ganha agravantes pesados porque ele atacou idosos (protegidos pelo Estatuto do Idoso) e uma pessoa com deficiência. Ele agiu na traição, na calada da noite, sem dar a mínima chance de defesa. Se a intenção era matar por vingança pelo dinheiro negado, ou matar para roubar o que tinha na casa, o resultado na Justiça é o mesmo: cadeia pesada, pois são crimes hediondos. Mas a lei também precisa olhar para a sombra dessa história.
A agiotagem é crime contra a economia popular. Se esses agiotas existem de fato e o estavam ameaçando, eles são cúmplices morais dessa chacina. E se não existem, se foram apenas uma desculpa inventada pelo assassino para justificar sua sede de sangue, a Polícia Civil tem o dever de desmascarar essa mentira. A agiotagem é uma roleta russa financeira que se joga nas periferias de Manaus. Começa com um sorriso amigável, um dinheiro “fácil” para pagar uma conta de luz atrasada ou um mercadinho, e termina com juros que não cabem no bolso, ameaças na porta de casa e o desespero batendo no peito.
O agiota não quer saber se você perdeu o emprego; os juros dele são cobrados em suor, paz e, muitas vezes, em sangue. Mas vamos ser claros: o desespero de uma dívida pode levar alguém à lona, mas não transforma um homem de bem em um monstro do dia para a noite. A frieza de Ezenilson é estarrecedora. Ele não deu um tiro de longe, num ímpeto cego. Ele usou um martelo.
Ele precisou levantar o braço e golpear, repetidas vezes, as cabeças de pessoas que dormiam. Ele sentiu o sangue respingar. Ele viu quem ele estava matando. O professor Guilherme, com toda a sua sabedoria, não teve como ensinar piedade àquele coração. O pastor Francisco não conseguiu com suas orações exorcizar o demônio da ganância do ex-genro. E a inocência de Isabella foi esmagada sem piedade.
Ezenilson tentou fechar sua conta com os agiotas sacando a vida dos outros. Ele transferiu a sua falência financeira para uma falência moral absoluta. “Bateu o martelo” na vida de quem só lhe estendeu a mão.
Manaus precisa chorar por essa família, mas também precisa acordar. Precisamos parar de romantizar o dinheiro fácil das ruas e cobrar das autoridades uma caçada implacável contra o submundo da agiotagem. Que a polícia não pare apenas no assassino confesso, mas vá atrás do caderno de dívidas que supostamente engatilhou essa tragédia. E se os agiotas forem um delírio covarde de Ezenilson para tentar diminuir sua culpa, que a verdade venha à tona para que ele pague centavo por centavo de sua pena. Porque a dívida que ele contraiu com a sociedade manauara e com a justiça divina, essa, meus amigos, não prescreve nunca.
Autor: Israel Stone