A ampliação do saneamento básico em Manaus tem transformado a realidade de milhares de famílias que passaram décadas sem acesso regular à água tratada. Em áreas marcadas pela vulnerabilidade social e pela expansão urbana acelerada, moradores começaram a sentir os impactos das obras de abastecimento e esgotamento sanitário realizadas nos últimos anos.
Na comunidade indígena urbana Fortaleza Kokama, localizada no bairro Santa Etelvina, zona Norte da capital, mais de mil moradores passaram a receber água tratada de forma contínua em abril deste ano. Formada por famílias de seis etnias, a comunidade convivia com ligações improvisadas e armazenamento de água em recipientes inadequados.
Segundo a cacique Geisiany Pimenta, a chegada do abastecimento regular mudou a rotina dos moradores. Ela relata que, antes da implantação do serviço, a água frequentemente era contaminada devido à fragilidade das instalações improvisadas utilizadas pela comunidade.
Apesar de estar situada em uma das capitais economicamente mais fortes da Região Norte, Manaus enfrentou dificuldades históricas na universalização do saneamento por conta do crescimento populacional acelerado registrado desde a implantação da Zona Franca, em 1967. Dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística apontam que a cidade ultrapassou os 2,3 milhões de habitantes e liderou o crescimento populacional entre as capitais brasileiras entre 2010 e 2022.
Segundo os dados, mais da metade da população manauara vive em áreas classificadas como vulneráveis, cenário que ampliou os desafios para garantir acesso aos serviços básicos.
Desde 2018, quando a concessionária Águas de Manaus assumiu os serviços de abastecimento e esgoto da capital, foram investidos mais de R$ 2,3 bilhões no setor. Somente em regiões vulneráveis, mais de 200 mil pessoas passaram a ter acesso à água tratada.
As intervenções incluíram adaptações para atender áreas de difícil acesso, como becos, palafitas, escadões e comunidades localizadas próximas a igarapés. Em 2023, a cidade atingiu a universalização do abastecimento de água, segundo a concessionária.
A dona de casa Noemea Maia, moradora da comunidade João Paulo, no bairro Jorge Teixeira, afirma que a chegada da água encanada trouxe melhorias para a saúde da família. Ela conta que, antes da implantação do serviço, utilizava água de cacimba e enfrentava episódios frequentes de doenças entre os filhos.
Dados da Fundação de Vigilância em Saúde Dra. Rosemary Costa Pinto indicam redução nos casos de hepatite A e diarreia entre 2018 e 2024, doenças relacionadas diretamente à qualidade da água consumida.
Neste ano, a concessionária lançou o programa “+Águas”, voltado para comunidades em expansão urbana e áreas recentemente regularizadas. A previsão é investir cerca de R$ 100 milhões até 2029 para levar abastecimento regular a 30 comunidades e beneficiar mais de 180 mil moradores.
Além da ampliação da rede, a empresa também expandiu os programas de tarifa social. Atualmente, mais de 140 mil famílias são atendidas pelas modalidades Tarifa Manauara e Tarifa 10, destinada a pessoas em situação de alta vulnerabilidade social.
Uma das beneficiadas é a dona de casa Valcimara da Silva, que relata que o valor reduzido da conta de água ajuda no orçamento familiar e permite direcionar recursos para outras despesas da casa.
Após alcançar a universalização do abastecimento de água, o próximo desafio da cidade passou a ser a expansão da rede de esgoto. Para isso, a concessionária lançou o programa Trata Bem Manaus, que prevê aproximadamente R$ 2 bilhões em investimentos para implantação de redes coletoras e ampliação das estações de tratamento.
Atualmente, Manaus trata mais de 62 milhões de litros de esgoto por dia. Nos últimos dois anos, cerca de 300 mil metros de redes foram implantados em bairros de diferentes zonas da cidade.
Entre os projetos implantados está um modelo desenvolvido para atender comunidades de palafitas. O Beco Nonato, no bairro Cachoeirinha, foi a primeira área a receber a estrutura adaptada para coleta e tratamento de esgoto. Outras comunidades da mesma região também passaram a contar com o sistema.
O avanço no saneamento colocou Manaus entre as capitais que mais investem no setor no país. Segundo o Ranking do Saneamento 2026, elaborado pelo Instituto Trata Brasil, a capital amazonense ocupa a quarta posição nacional em volume de investimentos na área.


