O paradoxo de Ulisses e a necessidade da narração em nossas vidas

A partir do paradoxo de Ulisses, a reflexão explora como a memória e o olhar do outro ajudam a transformar experiências em narrativas e a compreender quem somos.
Redação Imediato Online
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Opinião: por Myriam acorri

Desde o fim do ano passado, leio e releio os ensaios de Olha-me e narra-me, da filósofa italiana Adriana Cavarero. Muito me impressiona a capacidade que esse livro tem de continuar despertando reflexões e provocando minha escrita, mesmo depois de eu ter percorrido os mesmos trechos diversas vezes.

Logo no início da obra, Cavarero apresenta o paradoxo de Ulisses:

“Em uma das cenas mais bonitas da Odisseia, Ulisses, disfarçado, senta-se como convidado na corte dos feácios. Um aedo cego entretém os convidados com seu canto. Canta a guerra de Troia, narra episódios sobre Ulisses, sobre suas conquistas. E Ulisses, escondendo o rosto no grande manto purpúreo, chora.” (p. 28).

Recorrendo ao pensamento de Hannah Arendt, Cavarero explica que somente ao ouvir sua história Ulisses se torna consciente do significado daquilo que viveu. O paradoxo reside justamente nesse momento: alguém recebe a própria história por meio da voz de outra pessoa. Embora tenha protagonizado os acontecimentos narrados pelo aedo, Ulisses só consegue compreendê-los quando os escuta transformados em narrativa.

Enquanto vivemos, raramente dispomos do distanciamento necessário para reconhecer o sentido daquilo que nos acontece. Estamos mergulhados nos acontecimentos, submetidos às suas urgências, sem tempo para a comoção ou para a reflexão. É somente depois, quando a experiência se converte em relato, que podemos contemplá-la como uma história e tentar compreendê-la. É preciso narrar para compreender. E, muitas vezes, é preciso escutar para compreender quem se é.

O relato do aedo revela a identidade de Ulisses para ele mesmo. Isso significa que nossa história não se torna inteiramente visível apenas por meio de nossa própria consciência ou memória. Para entendermos quem somos, precisamos também desse outro que nos observa, reúne os fragmentos de nossa existência e os devolve a nós sob a forma de uma narrativa.

Cavarero amplia, então, o alcance dessa cena:

“O paradoxo de Ulisses vale, na verdade, não apenas para o herói, mas para todo ser humano em sua encarnada e irrepetível unicidade.” (p. 53).

Ulisses não chora simplesmente porque recorda o que viveu. Ele chora porque, ao ouvir sua vida narrada por outra pessoa, reconhece pela primeira vez a forma de sua própria história. O paradoxo de Ulisses é, portanto, também o nosso: vivemos sem conseguir enxergar inteiramente o desenho da nossa existência e dependemos da narração (nossa ou alheia) para descobrir algum sentido no que vivemos. Talvez seja por isso que narramos: para que a vida não permaneça apenas como uma sucessão de acontecimentos, mas possa finalmente tornar-se uma história.

Na página seguinte, a filósofa aprofunda essa reflexão:

“Cada ser humano, ainda que não deseje saber, sabe que é um ser narrável imerso na autonarração espontânea da própria memória. A memória pessoal não é explicitamente solicitada em seu exercício autobiográfico, isto é, a memória involuntária não cria uma recordação ativa: aquilo em que o si narrável se acomoda, mais do que um exercício consciente de reelaboração da lembrança, é a estrutura da narração espontânea da própria memória.” (p. 54).

Ser narrável não significa possuir uma autobiografia pronta. Significa que toda existência carrega, desde o princípio, a possibilidade de ser transformada em relato. Mesmo quando não decidimos recordar, nossa memória seleciona cenas, aproxima acontecimentos, recupera imagens e estabelece relações entre diferentes momentos da vida. Há, portanto, uma espécie de narrativa espontânea sendo produzida dentro de nós, anterior ao esforço consciente de contar nossa história.

A memória involuntária não funciona como um arquivo neutro, no qual os fatos permanecem intactos à espera de serem recuperados. Ela nos devolve fragmentos: pode ser uma voz, às vezes um cheiro, um gesto, ou mesmo uma paisagem. Ao emergirem, essas lembranças já ocupam determinado lugar na maneira como percebemos nossa existência. Antes mesmo de nos sentarmos para escrever uma autobiografia, a memória já organiza silenciosamente a experiência, ainda que de forma descontínua e instável, com eternas possibilidades de mudanças. Penso nesse movimento como o jogo Minecraft que meus filhos costumam criar e recriar.

Dessa maneira, somos, antes de tudo, seres narráveis, mas não necessariamente seres já narrados. Existe uma diferença entre carregar uma história e conseguir reconhecê-la como tal. Para que o narrável se transforme em narrado, é necessário que alguém recolha os acontecimentos dispersos e lhes dê uma forma. Esse alguém pode ser o próprio sujeito, por meio da escrita e da autonarração biográfica, mas pode ser também o outro, cuja voz nos oferece uma perspectiva que não conseguiríamos alcançar sozinhos. Pode ser ainda por meio da autoficção em que já não estabelecemos nenhum compromisso com a verdade dos fatos.

É justamente isso que ocorre com Ulisses. Ele sempre foi narrável, pois sua existência já continha uma história singular. Contudo, precisou escutá-la na voz do aedo para se reconhecer como protagonista dela. A narrativa não inventa sua identidade, mas a revela sob uma forma que ele, enquanto vivia, não podia enxergar.

Talvez seja por isso que narramos: para atravessar a distância entre aquilo que vivemos e aquilo que conseguimos compreender. Narramos para que a vida não permaneça apenas como uma sucessão de acontecimentos, mas possa finalmente adquirir a forma de uma história, a qual, muitas vezes, precisamos receber do outro para reconhecer como nossa.

 

 

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