Quando pensamos nos prejuízos provocados pelo cigarro, provavelmente os olhos não aparecem entre as primeiras preocupações. Pensamos no câncer de pulmão, no infarto, no acidente vascular cerebral e nas doenças respiratórias.
Quando falamos em consumo excessivo de álcool, lembramos do fígado, do cérebro e das consequências cardiovasculares. Mas existe uma parte do corpo que também pode sofrer com esses hábitos e que muitas vezes é esquecida: os olhos.
A visão depende de estruturas extremamente delicadas e de um equilíbrio metabólico e vascular que pode ser afetado por aquilo que fazemos diariamente. Retina, mácula e nervo óptico necessitam de uma circulação adequada e de células funcionando em condições muito específicas. Quando submetemos o organismo repetidamente às substâncias tóxicas presentes no cigarro, esse equilíbrio pode ser comprometido. E talvez o aspecto mais preocupante seja que isso não acontece necessariamente acompanhado de dor ou de um aviso imediato.
O cigarro contém milhares de substâncias químicas. Algumas delas aumentam o estresse oxidativo, favorecem processos inflamatórios e provocam alterações nos vasos sanguíneos. É como se, a cada cigarro, o organismo recebesse pequenas agressões que vão se acumulando durante anos. Os olhos também participam dessa história.
Uma das doenças relacionadas ao tabagismo é a catarata. O cristalino, lente natural localizada dentro dos nossos olhos, precisa permanecer transparente para que a luz atravesse o olho e alcance adequadamente a retina. Com o envelhecimento, essa estrutura sofre modificações naturais, mas determinados fatores podem acelerar o processo de opacificação, e o tabagismo está entre eles. A pessoa começa a perceber a visão mais embaçada, as cores menos intensas, maior sensibilidade à luz e dificuldade para dirigir à noite. Aos poucos, atividades antes simples passam a exigir mais esforço.
Existe ainda uma associação particularmente importante entre o cigarro e a degeneração macular relacionada à idade, a DMRI. A mácula é uma pequena região localizada no centro da retina e responsável justamente pela visão dos detalhes. É graças a ela que conseguimos ler, reconhecer um rosto ou perceber pequenos detalhes de uma imagem. Quando essa região é comprometida, a pessoa pode manter parte da visão periférica, mas perder justamente aquela visão central necessária para diversas atividades do cotidiano. A idade é um dos principais fatores de risco para a DMRI, mas fumar aumenta esse risco. Isso significa que abandonar o cigarro não é apenas uma decisão para proteger pulmões e coração. É também uma decisão de saúde ocular.
O nervo óptico também merece atenção. Ele funciona como uma espécie de cabo responsável por transportar as informações captadas pelos olhos até o cérebro. Algumas neuropatias ópticas podem estar relacionadas à exposição a substâncias tóxicas e a deficiências nutricionais. Em determinadas situações, principalmente quando tabagismo intenso, consumo excessivo de álcool e alimentação inadequada aparecem juntos, o risco de comprometimento neurológico e visual torna se ainda mais relevante.
E é justamente quando falamos sobre álcool que precisamos evitar exageros. Não significa que uma taça de vinho em uma ocasião social fará alguém perder a visão. Medicina não deve ser construída sobre alarmismo. O problema está principalmente no consumo excessivo e crônico. O abuso de álcool pode contribuir para deficiências nutricionais importantes, inclusive de vitaminas necessárias ao funcionamento adequado do sistema nervoso. Quando essas deficiências são intensas e prolongadas, o nervo óptico pode ser afetado. Além disso, o consumo excessivo de álcool está associado a outros problemas de saúde que também podem repercutir nos olhos.
Existe ainda uma situação completamente diferente e muito mais grave: a intoxicação por metanol. O metanol é um álcool tóxico que pode estar presente em bebidas adulteradas ou produtos impróprios para consumo. Sua ingestão pode provocar lesão grave do nervo óptico, perda visual permanente e até morte. Nesse caso, alterações visuais após ingestão suspeita representam uma emergência médica e exigem atendimento imediato.
Mas há algo ainda mais importante nessa discussão. Durante muito tempo, saúde ocular foi tratada quase como se estivesse separada do restante do organismo. Procurava se o oftalmologista para descobrir o grau dos óculos e outros médicos para cuidar da saúde. Hoje sabemos que essa divisão não faz sentido. Os olhos fazem parte do corpo e muitas doenças sistêmicas deixam sinais ou provocam consequências neles.
Diabetes pode causar retinopatia. Hipertensão pode alterar os vasos da retina. Doenças autoimunes podem produzir inflamações oculares. Alguns medicamentos podem aumentar a pressão intraocular ou provocar alterações no cristalino. Da mesma forma, hábitos como fumar podem aumentar o risco de doenças capazes de comprometer a visão. Por isso, quando um oftalmologista pergunta se o paciente fuma, consome álcool, possui diabetes, utiliza determinados medicamentos ou apresenta outras doenças, não está simplesmente preenchendo uma ficha. Essas informações ajudam a compreender os riscos daquele indivíduo e a direcionar sua avaliação.
A mesma lógica vale para a prevenção. Não fumar talvez seja uma das decisões mais importantes que alguém pode tomar para aumentar as chances de envelhecer com saúde. Quem já fuma também não deve imaginar que o estrago está feito e que abandonar o hábito não faria diferença. Parar continua sendo benéfico para a saúde geral e deve ser incentivado em qualquer fase da vida. Da mesma maneira, evitar o consumo excessivo de álcool, manter alimentação adequada, praticar atividade física e controlar pressão arterial, diabetes e colesterol são medidas que ajudam a construir um envelhecimento mais saudável.
É por isso que saúde ocular também precisa fazer parte da conversa sobre envelhecimento saudável. Algumas consequências dos nossos hábitos demoram décadas para aparecer e talvez seja justamente esse o motivo pelo qual seja tão fácil ignorá las. O cigarro fumado hoje não produz uma catarata amanhã. Uma rotina inadequada não provoca necessariamente perda visual na semana seguinte. O organismo acumula exposições, riscos e consequências ao longo do tempo.
Quando pensamos assim, cuidar dos olhos deixa de significar apenas tentar enxergar melhor hoje. Significa preservar a possibilidade de continuar vendo amanhã. Porque viver mais é uma conquista. Mas poder olhar para tudo aquilo que construímos ao longo da vida talvez seja uma das melhores maneiras de aproveitá la.
Dr. Swammy Mitozo
Médico Oftalmologista, especialista em Gerontologia e Saúde do Idoso. Pesquisador da FUnATI. Professor Universitário e Mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas pela Fundação de Medicina Tropical (UEA/FMT).