Celebrado na próxima segunda-feira (5), o Dia do Empreendedor chega em um ano de números expressivos para quem decidiu abrir o próprio negócio. Segundo levantamento do Sebrae, o empreendedorismo brasileiro cresceu 14,3% entre janeiro e agosto, com a criação de 3,93 milhões de novos pequenos negócios no país. O Amazonas aparece em destaque: está entre os dez estados com crescimento de aberturas acima da média nacional, com alta de 18% em relação ao mesmo período de 2025.
O outro lado dessa expansão, porém, preocupa. De acordo com a Serasa Experian, o número de empresas inadimplentes no Brasil bateu recorde da série histórica em junho de 2026, com mais de 9,1 milhões de CNPJs e dívidas acumuladas de R$ 232,9 bilhões, alta de 16,67% sobre o mesmo mês de 2025. As micro e pequenas empresas seguiram como maioria, com 8,6 milhões de CNPJs negativados, que somaram R$ 201,4 bilhões em dívidas.
Para a advogada amazonense Camila David, especialista em Direito Tributário e Empresarial, parte desses problemas poderia ser evitada com uma decisão tomada logo no início: tratar a estrutura jurídica do negócio como parte da gestão, e não como burocracia. Com passagem pela Advocacia-Geral da União (AGU) e atuação em consultoria preventiva e contenciosa para empresas, ela observa um padrão recorrente entre quem está começando.
Um dos erros mais comuns é o empresário
começar a operar sem pensar na estrutura jurídica da empresa. Muitas vezes, ele está tão focado em vender, conquistar clientes e fazer o negócio acontecer que acaba deixando contratos, questões societárias e obrigações tributárias em segundo plano”, afirma.
Confiança não substitui contrato
Outro ponto de atenção, segundo a advogada, é a informalidade nas relações. “Vejo muitos empreendedores tomando decisões importantes apenas com base na confiança, sem formalizar adequadamente as relações. Enquanto tudo está bem, isso parece não fazer diferença. Mas quando surge um conflito, a ausência de uma estrutura jurídica pode custar muito caro.”
Na avaliação de Camila, a assessoria jurídica deveria estar presente desde o início, mas se torna indispensável quando a empresa passa a contratar funcionários, fechar contratos relevantes, movimentar valores maiores ou firmar relações com sócios e fornecedores. “A assessoria não deve ser procurada apenas quando existe um problema. Ela precisa acompanhar o crescimento da empresa, porque conforme o negócio cresce, os riscos também se tornam maiores e mais complexos.”
Zona Franca exige atenção redobrada
Para quem empreende em Manaus, o cenário tem uma camada a mais. Defensora do modelo da Zona Franca de Manaus como motor de desenvolvimento regional, Camila lembra que os incentivos vêm acompanhados de obrigações. “O empresário local precisa compreender que não basta apenas usufruir dos incentivos fiscais. É necessário conhecer as regras, acompanhar as obrigações e garantir que a empresa esteja em conformidade para preservar esses benefícios.”
Por isso, diz ela, o planejamento jurídico e tributário na capital amazonense deixa de ser apenas uma ferramenta de economia. “Passa a ser também uma estratégia de proteção e sustentabilidade do negócio.”
Quem chega tarde
A advogada identifica um perfil frequente entre os clientes que a procuram quando o problema já está instalado: o empresário concentrado na operação, que acredita que a parte jurídica pode esperar. “É o empreendedor que só procura ajuda quando recebe uma notificação, enfrenta um problema com um funcionário, descobre uma cobrança tributária ou está prestes a fechar uma negociação importante.”
Camila não enxerga nisso descaso. “Muitas vezes é falta de informação sobre a importância da prevenção.” A saída, segundo ela, é incorporar a análise jurídica à rotina. “Uma avaliação preventiva, mesmo que inicial, já pode identificar riscos e evitar decisões que comprometam o futuro da empresa.”
O primeiro passo
Para quem pretende abrir empresa em Manaus agora, a recomendação é planejar antes de formalizar: definir a atividade, escolher o regime tributário adequado, estruturar a relação entre os sócios e levantar as licenças necessárias. Na capital, vale ainda verificar se a atividade pode se enquadrar em algum incentivo ou tratamento tributário específico da Zona Franca.
“O primeiro cuidado é não tratar a abertura da empresa apenas como uma formalidade. É nesse momento que muitas decisões são tomadas e que podem impactar diretamente os custos, os riscos e as oportunidades do negócio no futuro”, conclui.