Não espere enxergar mal: por que o acompanhamento oftalmológico deve começar antes dos sintomas

Consulta oftalmológica deve fazer parte da rotina de cuidados com a saúde dos olhos. Veja a importância do acompanhamento em cada fase da vida.
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

Uma pergunta frequente nos consultórios de oftalmologia é: de quanto em quanto tempo é necessário consultar um oftalmologista?

Durante muito tempo, a resposta ficou associada a recomendações genéricas. Há quem procure atendimento apenas quando os óculos deixam de funcionar bem ou quando percebe alguma dificuldade para enxergar. Outros passam anos sem uma avaliação por acreditarem que, se a visão está normal, não há necessidade de consulta.

O problema é que nem todas as doenças oculares provocam sintomas logo no início.

O Conselho Brasileiro de Oftalmologia (CBO) reforça que o cuidado com a saúde ocular deve acompanhar diferentes fases da vida. A entidade destaca que a avaliação oftalmológica vai além da medição da acuidade visual ou da verificação do grau dos óculos.

O cuidado começa na infância
A atenção com a visão começa ainda nos primeiros dias de vida. O teste do reflexo vermelho, conhecido como teste do olhinho, pode identificar alterações oculares importantes e permite o encaminhamento para avaliação especializada quando há alguma alteração.

Durante a infância, o acompanhamento continua sendo importante porque a criança pode apresentar uma alteração visual sem conseguir perceber ou explicar que está enxergando de maneira diferente.

O CBO destaca que a visão está em desenvolvimento durante os primeiros anos de vida e que problemas como estrabismo, erros de refração e ambliopia podem interferir no desenvolvimento visual. O diagnóstico e o tratamento precoces são importantes para preservar esse desenvolvimento.

Na fase escolar e na adolescência, os erros de refração, como miopia, hipermetropia e astigmatismo, ganham importância. A miopia, por exemplo, costuma aparecer ou aumentar durante o período de crescimento.

Enxergar bem não significa que os olhos estejam saudáveis
Na vida adulta, uma das razões para adiar a consulta é a ausência de dificuldades para enxergar.

Mas a visão aparentemente normal não exclui a possibilidade de alterações oculares.

O glaucoma é um dos exemplos de doença que pode evoluir de forma silenciosa. A avaliação oftalmológica permite que o médico examine diferentes estruturas dos olhos e identifique alterações que podem não ser percebidas pelo paciente.

Por isso, o acompanhamento não deve ser entendido apenas como uma consulta para atualizar a receita dos óculos.

Dependendo da idade, do histórico e dos achados clínicos, o oftalmologista pode avaliar estruturas como córnea, cristalino, retina e nervo óptico, além de verificar a pressão intraocular e solicitar exames complementares quando necessário.

O que muda depois dos 40 anos
A partir dos 40 anos, alterações relacionadas ao envelhecimento dos olhos passam a ganhar maior atenção. A presbiopia, conhecida popularmente como vista cansada, é comum nessa fase e provoca dificuldade progressiva para enxergar objetos próximos.

Com o avanço da idade, outras condições oculares também se tornam mais frequentes, entre elas catarata, glaucoma e alterações da retina.

Por isso, o acompanhamento deve levar em consideração não apenas a idade, mas também o histórico de saúde e os fatores de risco de cada pessoa.

Algumas pessoas precisam de acompanhamento individualizado
Não existe um único intervalo de consultas que possa ser aplicado a todos os pacientes.

Pessoas com diabetes, histórico familiar de glaucoma ou de outras doenças oculares, miopia elevada, determinadas doenças sistêmicas ou que utilizam medicamentos que podem afetar os olhos podem precisar de avaliações mais frequentes.

Usuários de lentes de contato também precisam manter acompanhamento oftalmológico periódico.

No caso do diabetes, a atenção é especialmente importante porque alterações na retina podem ocorrer antes de o paciente perceber mudanças na visão. O acompanhamento oftalmológico permite investigar possíveis complicações e definir a necessidade de exames complementares.

Consulta não é apenas para medir o grau
Um dos pontos destacados pelo CBO é que a avaliação oftalmológica não deve ser confundida com uma simples consulta para determinar o grau dos óculos.

O exame permite avaliar a saúde ocular de maneira mais ampla e identificar alterações que podem passar despercebidas pelo próprio paciente.

Por isso, esperar a visão piorar para procurar atendimento pode significar perder uma oportunidade de identificar precocemente determinada alteração.

Os intervalos entre as consultas, entretanto, devem ser definidos de acordo com a situação de cada paciente. Pessoas que já apresentam doenças oculares ou fatores de risco podem precisar de acompanhamento diferente daquele indicado para quem não possui essas condições.

Visão também significa autonomia
Na terceira idade, preservar a visão está diretamente relacionado à independência.

Enxergar adequadamente ajuda em tarefas cotidianas como ler, reconhecer pessoas, utilizar medicamentos, caminhar com segurança, preparar alimentos e utilizar dispositivos eletrônicos.

Alterações visuais também podem dificultar atividades do dia a dia e aumentar riscos relacionados à mobilidade.

Por isso, o acompanhamento da saúde ocular faz parte dos cuidados ao longo do envelhecimento.

Prevenção antes dos sintomas
A principal mensagem é que a consulta oftalmológica não deve ser procurada somente quando surge uma dificuldade para enxergar.

O acompanhamento permite avaliar a saúde dos olhos em diferentes momentos da vida e identificar alterações antes que elas sejam percebidas pelo paciente.

A visão acompanha o ser humano desde os primeiros dias de vida e passa por mudanças ao longo dos anos. Manter uma rotina de avaliação permite que essas transformações sejam acompanhadas de acordo com as necessidades de cada pessoa.

Dr. Swammy Mitozo
Médico oftalmologista, especialista em Gerontologia e Saúde do Idoso. Pesquisador da FUnATI, professor universitário e mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas pela Fundação de Medicina Tropical (UEA/FMT).

Carregar Comentários