Agosto Cinza: quando a visão embaçada não deve ser confundida com a idade

Campanha reforça a importância do diagnóstico da catarata, doença comum com o envelhecimento e que pode comprometer a autonomia e a qualidade de vida.
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Imagine olhar para uma paisagem conhecida e perceber que as cores já não parecem tão vivas. O branco começa a ganhar um tom amarelado, dirigir à noite fica mais difícil, as luzes incomodam e aquela sensação de enxergar através de um vidro embaçado passa a fazer parte da rotina.

Para muitas pessoas, esses sinais são simplesmente atribuídos ao envelhecimento. No entanto, eles podem indicar catarata, uma das principais causas de deficiência visual no mundo e tema de conscientização durante o Agosto Cinza.

A campanha busca ampliar a informação sobre uma doença extremamente comum, principalmente entre pessoas mais velhas, mas que ainda desperta dúvidas e receios. Uma das principais informações é que a catarata tem tratamento e, na maioria dos casos, a visão pode ser recuperada por meio da cirurgia.

O que é a catarata?

Para entender a doença, é preciso conhecer o cristalino, uma estrutura localizada dentro do olho que funciona como uma lente natural. Ele ajuda a focalizar a luz que entra no olho para que as imagens sejam formadas de maneira nítida na retina.

Quando somos jovens, o cristalino é transparente. Com o passar dos anos, porém, alterações naturais podem fazer com que essa estrutura perca progressivamente sua transparência.

É como se uma janela limpa começasse, aos poucos, a ficar embaçada.

A diferença é que não é possível simplesmente limpar o cristalino. Quando essa opacidade passa a comprometer a visão, ocorre a catarata.

Idade é o principal fator, mas não é o único

O envelhecimento é a causa mais frequente da catarata, o que explica a relação da doença com a população idosa.

Isso não significa, entretanto, que somente pessoas mais velhas possam desenvolver a condição. Diabetes, traumas oculares, exposição prolongada à radiação ultravioleta, tabagismo e uso prolongado de determinados medicamentos, especialmente corticoides, também podem favorecer seu aparecimento.

Outro fator que merece atenção é a evolução geralmente lenta da doença.

Como a perda visual acontece gradualmente, o paciente pode acabar se adaptando à nova realidade. Aumentar a iluminação para ler, aproximar objetos, evitar dirigir à noite ou simplesmente aceitar que a visão já não é a mesma podem parecer soluções.

Mas existe um equívoco nessa adaptação: envelhecer não significa necessariamente enxergar mal.

A visão interfere na autonomia

A redução da capacidade visual pode afetar diretamente a independência e a qualidade de vida.

Dificuldades para reconhecer rostos, ler mensagens, administrar medicamentos, caminhar em locais com pouca iluminação ou realizar tarefas domésticas podem modificar significativamente a rotina de uma pessoa idosa.

A baixa visão também pode aumentar o risco de quedas e acidentes, além de contribuir para o isolamento social e a perda de autonomia.

Por isso, alterações na visão não devem ser encaradas apenas como uma consequência inevitável da idade.

Catarata tem tratamento

Uma das boas notícias relacionadas à doença é que a catarata possui um tratamento considerado bastante eficaz.

Quando a opacidade do cristalino começa a interferir significativamente nas atividades do paciente, o oftalmologista pode indicar a cirurgia.

Durante o procedimento, o cristalino opaco é removido e substituído por uma lente intraocular transparente. As técnicas atuais permitem que o procedimento seja realizado, em muitos casos, com anestesia local e sem necessidade de internação prolongada.

A recuperação varia de acordo com cada paciente, e a melhora da visão ocorre progressivamente durante o período de recuperação.

Lentes podem corrigir outros problemas

Outro avanço está nas diferentes tecnologias de lentes intraoculares disponíveis atualmente.

Em determinados pacientes, além de substituir o cristalino comprometido, algumas lentes podem ajudar na correção de alterações como miopia, hipermetropia e astigmatismo. Há ainda opções desenvolvidas para proporcionar melhor visão em diferentes distâncias.

A escolha da lente, porém, precisa ser individualizada, considerando as características dos olhos e as necessidades de cada paciente após uma avaliação oftalmológica completa.

É preciso esperar a catarata “amadurecer”?

Esse é um dos mitos que ainda cercam a doença.

Antigamente, quando as técnicas cirúrgicas eram diferentes, era comum esperar que a catarata avançasse mais antes da realização do procedimento.

Atualmente, a decisão sobre o momento da cirurgia está muito mais relacionada ao impacto que a catarata provoca na vida do paciente.

Quando a dificuldade para enxergar começa a limitar atividades importantes, é necessário conversar com o oftalmologista sobre as possibilidades de tratamento.

Nem toda visão embaçada é catarata

Outro ponto importante é que nem toda alteração visual depois dos 60 anos significa catarata.

Glaucoma, degeneração macular relacionada à idade, retinopatia diabética e outras doenças também podem se tornar mais frequentes com o envelhecimento. Algumas delas podem evoluir silenciosamente e provocar danos irreversíveis.

Por isso, simplesmente trocar os óculos quando a visão piora pode não ser suficiente.

O exame oftalmológico permite avaliar não apenas o grau dos óculos, mas também estruturas como a pressão intraocular, o cristalino, a retina e o nervo óptico.

Enxergar melhor também significa viver melhor

Para uma pessoa idosa, recuperar a qualidade da visão pode representar muito mais do que conseguir identificar letras durante uma consulta.

Pode significar voltar a ler, cozinhar, assistir televisão, caminhar com mais segurança, reconhecer as expressões no rosto dos netos ou retomar atividades que haviam sido deixadas de lado por causa da dificuldade para enxergar.

“Devolver visão significa também devolver possibilidades”, destaca o oftalmologista Dr. Swammy Mitozo, especialista em Gerontologia e Saúde do Idoso, pesquisador da FUnATI, professor universitário e mestre em Doenças Tropicais e Infecciosas pela UEA/FMT.

Neste Agosto Cinza, a orientação é observar as mudanças na visão e não atribuir automaticamente todos os sintomas ao envelhecimento.

Se a visão estiver embaçada, as cores parecerem menos intensas ou dirigir à noite estiver cada vez mais difícil, procure uma avaliação oftalmológica.

Envelhecer faz parte da vida. Deixar de enxergá-la com clareza não precisa fazer.

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