Manaus-AM | Manaus é uma cidade de peculiaridades e paisagens únicas, que ao longo dos anos intriga, impressiona e inspira residentes e visitantes de várias localidades do Brasil e do mundo. Com todos os contrastes, formas e cores, a capital amazonense tem um imenso acervo de obras criadas em sua homenagem.
Seja em um breve momento de reflexão, uma rima no papel, um esboço de um desenho, a memória de Manaus vai ganhando forma pela perspectiva de pessoas que buscam transmitir a essência da cidade por meio da paixão pela arte.
Dessa forma, Manaus inspirou gerações ao longo dos anos e cada composição torna-se uma tradução singular do que a cidade representa pelo olhar de cada artista. A equipe de reportagem do Imediato entrevistou alguns desses artistas que adaptaram seus estilos e técnicas para traduzir as várias facetas da cidade.
Poesia e música para Manaus

Sentimentos de gratidão e fascínio pela cidade de Manaus estão bem presentes nas composições do cantor Nícolas Júnior, que iniciou a carreira musical pouco tempo após se mudar para a cidade, no ano de 1998. Entre os diversos trabalhos que o artista dedica ao cenário amazonense, Nícolas destaca a música “Manaus”.
A música faz parte da série “A Divina Comédia Cabocla”, uma coletânea de composições em parceria com os jornalistas Aldísio Filgueiras e Joaquim Marinho em que peculiaridades do cotidiano amazonense viraram canções.
Nícolas Júnior atribui suas conquistas à terra que o acolheu como a principal inspiração para compor a música ‘Manaus’. “Tenho um sentimento de realização por tudo que conquistei aqui. É a cidade que escolhi para viver, então fazer essa música foi muito gratificante para mim pois retrata a cidade que eu amo”, afirmou o cantor.

Um vasto campo de conflitos sem os quais hoje não saberia viver, é como o cantor e compositor Armando de Paula descreve o que sente por Manaus. “Relação de amor e ódio, calmaria e tempestade, desejo de ir, vontade de ficar. Amor pelas tempestades, consciência do valor da guerra na manutenção da paz! Tudo isso Manaus me ensinou”, afirma.
O cantor Armando de Paula, em parceria de Celdo Braga, compôs a música “Manaus Morena”, uma declaração apaixonada à cidade de Manaus.
Ao longo da carreira o cantor compôs outras obras inspiradas em Manaus e na Amazônia. Entre as composições, de Paula também destaca a música “Farinha” que é uma parceria com o poeta Eliakin Rufino.
Segundo Armando de Paula, a música surgiu durante uma visita ao amigo poeta. “Quando em uma viagem visitei o poeta Eliakin, ele já tinha a letra em forma de poema e eu só acrescentei a melodia e produzi até chegar ao resultado do clipe. É uma das muitas que vem reforçar a presença de nossa cultura cabocla no cenário artístico musical”, pontuou o cantor.
Crônicas e desenhos nas redes sociais
A tecnologia tornou-se um facilitador pelo qual artistas independentes podem divulgar trabalhos inspirados em Manaus. Foi a partir deste princípio que a estudante de letras da Ufam, Danna Dantas, e o designer Zedu Miranda, iniciaram o projeto ‘Urban Cookie’, uma série de publicações baseadas em observações do cotidiano manauara.
“O projeto consiste em textos curtos, acompanhados de ilustrações sobre personagens anônimos que moram em uma cidade imaginária. A partir disso, os textos e desenhos são sempre pensados em um contexto urbano que retrata sentimentos comuns à muitas pessoas, como solidão, medos, amores e amadurecimento”, afirmou Danna Dantas.
Expressão nas ruas da Manaus contemporânea
Pelas ruas, muros e postes de Manaus existem muitas formas de expressão que não se resumem somente às conhecidas grafites. Nos últimos anos, começaram a aparecer os “Lambe-lambes”, como são chamadas as colagens feitas em via pública. Estas intervenções artísticas geralmente estão ‘carregadas’ de poderosas mensagens de protesto, pensamentos livres e muita criatividade.
Foi com essas intervenções urbanas, que o artista plástico Francisco Ricardo Lima Caetano, levou a reflexão sobre a resistência da negritude e ancestralidade para as ruas de Manaus.

O artista destaca o trabalho “Corpo preto/ escuraessencia”. “Esse trabalho fala sobre a resistência de corpo preto na cidade de Manaus, sobre a existência e o pagamento histórico do corpo negro na cidade. A obra fala muito sobre como Manaus não gosta ou tolera o corpo negro”, segundo o artista, o trabalho durou menos de um dia no local onde foi instalado. “Essa arte revela a relação da cidade com sua história e sua herança não branca e sua ancestralidade”, finalizou Franscisco Ricardo Lima.
Manaus, um amor digitalizado
Diferentes pontos de vista sobre Manaus podem ser encontrados também no meio digital. Ilustradores apaixonados pela ‘terrinha’ também publicam suas homenagens com ilustrações.

Na ilustração “Dualidade Manauara”, o ilustrador César Edgar expressou a imagem ‘dividida’ de Manaus. Segundo o artista, a inspiração veio do Encontro das Águas. “Assim como o Rio Negro e o rio Solimões têm contraste e não se misturam, eu quis trabalhar a dualidade da Manaus urbana e das florestas. O encontro das águas separa as duas Manaus e para unir os dois lados, temos a ponte que liga Manaus ao interior”, pontuou.
A estética da fauna e flora amazônicas também inspirou o designer Thiago Rocha a criar ilustrações como ‘Amazona’ e ‘Tipografia Amazônica’. As obras são inspiradas nas histórias das Amazonas e na estética indígena amazônica, respectivamente.

O designer lembra que em Manaus, a maior inspiração são os artistas que precederam o trabalho contemporâneo. “Eu não teria aprendido sobre a nossa cultura se não tivesse uma multidão de artistas regionais que trabalham dentro e fora do país. Eles me ensinaram a repensar e a absorver qualidades estéticas que a gente só encontra aqui: formas, cores, estruturas, cultura, história”.
Manaus: história e cotidiano em quadrinhos
Da inspiração na rica história e cultura de Manaus, surgiu um grupo de quadrinistas que começou a colocar o cotidiano manauara em evidência para o Brasil e o mundo por meio das clássicas histórias em quadrinhos. Entre roteiristas, cartunistas, designers e escritores, o grupo AJURI é composto por 30 membros que contam as histórias e causos de Manaus com quadrinhos.
O roteirista e escritor Evaldo Vasconcelos, coordenador do grupo, conta que seu primeiro trabalho de quadrinhos inspirados em Manaus, foi resultado de seis meses de pesquisa. “Li vários livros sobre a história da cidade e a partir daí eu percebi que a nossa história tem vários fatos interessantes que a maior parte da população não conhece e que dariam ótimos enredos para histórias em quadrinhos”, contou.

A partir deste trabalho, em 2018 surgiu o grupo AJURI, que trabalha produzindo histórias, muitas baseadas em Manaus. Vasconcelos também explicou que após o grupo participar de feiras nacionais e internacionais de quadrinhos, ficou evidente a curiosidade das pessoas de fora a respeito de Manaus.

Um olhar futurista sobre civilizações antigas
O ilustrador Jucylande Paula, faz parte de alguns grupos de quadrinistas em Manaus, entre eles o C4 Estúdio, no qual todos os trabalhos são inspirados em histórias que se passam na região. Ele afirma que com o tempo ‘cansou’ de exaltar trabalhos estrangeiros e passou a valorizar mais as criações locais. “Nossa cultura é riquíssima, então o intuito é exportar a nossa cultura ao invés de trazer super-heróis americanos, podemos criar coisas tão boas quanto o pessoal de fora”, destacou.

O artista fala sobre seu trabalho inspirado na tribo dos Manaós. “A história é baseada nos deuses astronautas e fala sobre um explorador que vem à tribo dos Manaós antes do cacicado, período que não tem muitos registros, então nós podemos ‘viajar’ bastante”, finalizou.
Manaus nua e crua
A realidade das ‘noitadas’ de Manaus, é expressa de forma visceral pelo olhar do cartunista Gilmar Melo. Na revista ‘Casa da Luz Vermelha’, o artista tem como inspiração histórias reais que se passam na Zona Leste da cidade. A publicação tem 36 páginas impressas em papel vermelho. “A revista conta histórias de traição de casais, consumo de drogas, sexo e violência. É uma poesia recheada de melodramas”, afirmou o cartunista.

