Campanha de combate ao assédio à mulher durante a Copa do Mundo 2026: MP e o desafio de debater respeito em um espaço historicamente machista

Iniciativa do Ministério Público de Rondônia alcançou milhares de torcedores e plantou sementes de conscientização entre os homens rondonienses
Redação Imediato Online
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Em março de 2026, durante a cobertura do clássico Gre-Nal no Estádio Beira-Rio, a jornalista Alice Bastos Neves, da RBS TV, foi alvo de ofensas machistas vindas da arquibancada. Dois anos antes, em 2024, a repórter Verônica Dalcanal, da EBC, sofreu importunação sexual ao vivo cometida por torcedores durante um jogo da Série B. Em 2018, na Rússia, a repórter Júlia Guimarães, da TV Globo, precisou se esquivar de um torcedor que tentou beijá-la à força durante uma transmissão da Copa do Mundo.

VIDA REAL
Estudos apontam que mais de 65% das mulheres que frequentam ou trabalham no futebol no Brasil já sofreram algum tipo de assédio. Uma dessas vítimas é a rondoniense Karina Quadros: jornalista esportiva experiente, mãe e referência em sua área. Contudo, nem mesmo uma carreira consolidada a blindou da hostilidade de gênero no esporte.

“Eu já fui cuspida durante uma transmissão de futebol, estava trabalhando. Também já ouvi ofensas, recebi cantadas e tive entrevistas recusadas. São situações que atravessaram a minha trajetória no jornalismo esportivo.
Quando me pedem para contar um episódio, é difícil escolher, porque foram muitos. E o problema também está aí: na quantidade de situações que a gente vai acumulando e que acabam sendo tratadas como parte da profissão. Nenhuma mulher deveria precisar aceitar esse tipo de violência para trabalhar com esporte”, revelou Karina, ao relembrar sua trajetória.

Arquivo/Redes sociais

Essas narrativas não são episódios isolados, ao contrário, revelam um padrão estrutural e recorrente. Diante desse cenário, em junho de 2026, o Ministério Público do Estado de Rondônia (MPRO), em parceria com a Federação de Futebol do Estado de Rondônia (FFER), lançou uma campanha de combate à violência e ao assédio contra a mulher durante a Copa do Mundo 2026. A ação utilizou o apelo popular do futebol para estimular denúncias e provocar o debate sobre igualdade e estereótipos de gênero.

MENSAGEM CONTINUADA DENTRO E FORA DOS CAMPOS
A estratégia de comunicação foi ampla e ocupou diferentes espaços urbanos e digitais ao longo do torneio:

“A campanha ficou no ar durante todo o período da Copa. Instalamos outdoors pelo estado e veiculamos diversos vídeos no perfil do MP no Instagram, nos telões da área temática da Copa no shopping e no espaço ‘Rua do Hexa’, promovido pelo município. A cada jogo, divulgávamos a tabela da competição acompanhada de conteúdos educativos, reforçando que o respeito e a igualdade devem prevalecer em todos os lugares: no campo, no estádio, em casa, no bar ou na rua”, explica a promotora de Justiça Tânia Garcia.

“Estudos mostram que o assédio priva as mulheres do seu direito ao lazer, afinal, o futebol também pertence a elas. Além disso, o esporte é um campo profissional para jogadoras, jornalistas e gestoras, que precisam ter garantidas as mesmas condições de trabalho, remuneração e respeito”, completa a promotora.

Redes Sociais / MP-RO

QUAL LEGADO FICOU?
Para conscientizar o público masculino e combater a violência doméstica e de gênero, o MPRO apostou em múltiplas frentes: outdoors, produções audiovisuais, estandes informativos durante as exibições dos jogos e painéis interativos.

Os reflexos dessa mobilização já começam a aparecer nas estatísticas oficiais. Em maio de 2026, mês anterior a Copa, Rondônia registrou 870 ocorrências de violência doméstica. Em agosto, primeiro mês pós-competição, esse número caiu para 793 registros, uma redução de 8,85%, representando quase 100 boletins de ocorrência a menos.

“Quando o Ministério Público coloca esse assunto dentro dos estádios, nos materiais e nos espaços de circulação do público, ajuda a deixar claro que assédio não pode ser tratado como brincadeira ou como parte da festa do futebol.
Para quem sofre, também é importante perceber que existe apoio, que a situação merece ser ouvida e que é possível pedir ajuda. Quem está por perto precisa entender que também tem responsabilidade e pode agir.“ disse Karina sobre a campanha do MP.

TRANSFORMAR O APITO FINAL EM UM NOVO RECOMEÇO
Embora a queda nos índices de violência demonstre a eficácia das ações de conscientização, o combate ao machismo no esporte e na sociedade não se encerra com o apito final da Copa do Mundo. O verdadeiro legado da campanha promovida pelo Ministério Público em Rondônia reside na mudança contínua de atitude e na desconstrução de comportamentos perigosos naturalizados ao longo de gerações.

Garantir que as arquibancadas, os veículos de imprensa e as ruas sejam ambientes seguros para as mulheres é uma responsabilidade de todos. Quando o futebol é utilizado como plataforma de reflexão e respeito, a sociedade inteira avança, mostrando que o direito de viver sem medo de qualquer tipo de violência é a única vitória que realmente importa.

Por: Matheus Gama

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