Lucimar das Neves Ferreira, irmão de Leide das Neves e um dos sobreviventes diretamente contaminados pelo césio-137 em Goiânia, morreu neste sábado (25), aos 53 anos. Ele foi encontrado sem vida pela esposa na casa onde morava, em Abadia de Goiás. A causa da morte ainda será esclarecida por exames do Instituto Médico Legal (IML).
Lucimar tinha apenas 14 anos quando foi exposto ao material radioativo que transformou para sempre a história de sua família e do país. Filho de Ivo Alves Ferreira e Lourdes das Neves Ferreira, ele estava entre os parentes mais gravemente contaminados e precisou ser transferido para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro, devido à gravidade da exposição.
Sua irmã, Leide das Neves Ferreira, morreu aos 6 anos, em outubro de 1987, tornando-se o principal símbolo da maior tragédia radiológica já registrada no Brasil.
Quase quatro décadas depois, Lucimar ainda convivia com as cicatrizes invisíveis do acidente. Em entrevista concedida em março deste ano, contou que nunca conseguiu reconstruir plenamente a vida após a contaminação.
“Do nada, vem uma tristeza. Parece um distúrbio”, desabafou.
Ao relembrar os primeiros dias após o acidente, também falou sobre o desconhecimento das equipes de saúde diante de uma tragédia inédita no país.
“Ninguém sabia. Eles foram aprendendo com a gente.”
Segundo o presidente da associação das vítimas do césio-137, Marcelo Santos Neves, Lucimar enfrentava depressão e alcoolismo. Familiares relataram que os traumas, o preconceito e as perdas provocados pela tragédia o acompanharam desde a adolescência.
Tragédia marcou Goiânia
O acidente começou em setembro de 1987, quando um aparelho de radioterapia abandonado em uma clínica desativada foi retirado e desmontado. Dentro dele havia uma cápsula com cloreto de césio-137. O brilho azulado da substância despertou curiosidade e fez com que o material fosse compartilhado entre parentes, vizinhos e conhecidos, espalhando a contaminação.
Mais de 112 mil pessoas foram monitoradas. Destas, 249 apresentaram algum tipo de contaminação interna ou externa. Quatro mortes foram oficialmente atribuídas à exposição direta: Leide das Neves Ferreira, Maria Gabriela Ferreira, Israel Baptista dos Santos e Admilson Alves de Souza.
Lucimar tornou-se um dos principais rostos da luta dos sobreviventes e da memória da tragédia. Em uma de suas últimas entrevistas, emocionou ao afirmar que nunca alimentou ressentimento contra quem manuseou o material radioativo sem saber do perigo.
“Muita gente pergunta se eu tenho raiva. Não tenho. Foram vítimas também.”
Essa declaração resumiu a trajetória de um homem que sobreviveu ao acidente, mas passou quase quatro décadas convivendo com as consequências físicas, emocionais e sociais de uma tragédia que jamais dei.xou para trás