MANAUS (AM) – Buracos invisíveis sob a água barrenta, mau cheiro constante, surto de doenças de pele e o medo compartilhado a cada noite de chuva. Essa é a realidade dos moradores da Rua Rio Gregório, no bairro Armando Mendes, zona Leste de Manaus. Uma equipe de reportagem do site Imediato esteve no local e constatou o estado de calamidade pública em que a comunidade se encontra, refém de um igarapé que transbordou e engoliu a via.

Para conseguir caminhar na própria rua, a equipe de jornalismo e os residentes precisam fazer uso de galochas e Equipamentos de Proteção Individual (EPIs). A água, que vem de um igarapé nas proximidades da Avenida Autaz Mirim, está completamente parada e acumulada devido ao entupimento crônico de bueiros e da tubulação de escoamento. Nos últimos 18 meses, o problema se agravou drasticamente, transformando o asfalto em valas profundas e perigosas que ficam escondidas sob a inundação.
“Já perdi tudo”, desabafa morador que vive há 33 anos no local
O aposentado Isaac, de 63 anos, mora na área há mais de três décadas e relata que a luta contra a água podre já dura sete anos. A casa dele, uma estrutura branca localizada no trecho mais crítico da via, é constantemente invadida pela lama.
“Quando vem chuva, alaga demais, entra na minha casa. Já perdi freezer, cama, meus móveis… tudo já perdi aqui. O esgoto e o igarapé estão entupidos e a água não corre. A gente fica nessa dificuldade e pede a Deus para não chover de noite, porque no escuro é ainda mais perigoso”, desabafa o morador.
O impacto na saúde da família é imediato. Mesmo usando botas de borracha para tentar evitar o contato com a água contaminada, o Sr. Isaac conta que já contraiu infecções e coceiras nos pés. Ele mora com a esposa, de 58 anos, e um neto, que enfrentam diariamente o mesmo sofrimento para conseguir sair de casa e comprar mantimentos.
O drama da comunidade carrega, inclusive, marcas trágicas. Segundo o Sr. Isaac, um vizinho idoso faleceu tempos atrás após sofrer um mal súbito decorrente do pânico causado por uma forte alagação que invadiu sua residência durante a madrugada.
Isolamento: Ambulâncias e coleta de lixo não entram na rua
A situação da infraestrutura na Rua Rio Gregório gerou um isolamento forçado. Veículos de passeio não conseguem trafegar pela via. Serviços essenciais de emergência, como ambulâncias do SAMU, viaturas de polícia ou caminhões do Corpo de Bombeiros, estão impossibilitados de prestar atendimento na área devido ao risco de caírem nos buracos submersos.
Até mesmo o serviço de coleta de lixo foi afetado. O caminhão da limpeza pública não consegue acessar as residências, obrigando os moradores a reterem os resíduos ou caminharem com as sacolas até pontos secos do bairro.
Motociclistas de aplicativo (Uber/99) e entregadores de delivery rotineiramente dão ré ao se depararem com o “rio” que se formou na pista. O GPS aponta a rua como rota principal, mas os condutores são forçados a fazer um retorno demorado pela Avenida Autaz Mirim para desviar do alagamento. Os poucos que se arriscam costumam sofrer quedas nas valas ocultas.
Cenário de abandono e prejuízos no comércio
O rastro de destruição provocado pelo descaso público transformou a vizinhança. Várias casas ao redor foram abandonadas pelos proprietários, que fugiram das alagações, deixando para trás imóveis vazios e tomados pelo mato alto. Em um beco adjacente à casa do Sr. Isaac, famílias com crianças pequenas vivem cercadas pelos dejetos, com marcas de umidade que cobrem metade das paredes externas das habitações.