Caso Benício: mais de 20 depoimentos impulsionam investigação sobre morte de criança em hospital privado de Manaus

Investigação sobre morte de criança em hospital privado de Manaus avança com mais de 20 depoimentos de médicos, enfermeiros e familiares.
Redação Imediato Online
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A investigação sobre a morte de Benício Xavier, de 6 anos, após a aplicação incorreta de adrenalina no Hospital Santa Júlia, em Manaus, avançou com a oitiva de mais de 20 testemunhas, entre médicos, técnicos, enfermeiros e familiares. O caso é conduzido pelo 24º Distrito Integrado de Polícia (DIP).

Segundo a Polícia Civil, os depoimentos reunidos até agora reforçam divergências entre os relatos dos profissionais envolvidos no atendimento e apresentam novos detalhes sobre a rotina da unidade de saúde e a conduta da equipe no dia da morte.


Início da investigação

As oitivas começaram em 25 de novembro, dois dias após a morte de Benício. Os pais, Joyce Xavier e Bruno Melo de Freitas, foram os primeiros a depor. Eles relataram que o filho deu entrada com tosse seca e suspeita de laringite e que, no atendimento inicial, a médica Juliana Brasil prescreveu, além de soro e lavagem nasal, três doses de adrenalina intravenosa, 3 ml a cada 30 minutos.

Logo após a aplicação, o menino apresentou palidez, dor intensa no peito e dificuldade para respirar. A família afirmou que a criança ainda relatou sentir o coração “queimando”. O quadro evoluiu rapidamente, resultando em intubação e na morte horas depois.


O que disseram os profissionais

A médica Juliana Brasil, responsável pela prescrição, afirmou em depoimento que teria mencionado à mãe que o medicamento deveria ser administrado por via oral. Ela disse ter se surpreendido ao saber que a técnica de enfermagem seguiu a prescrição sem questionamentos.

Posteriormente, sua defesa alegou que a prescrição intravenosa foi resultado de uma possível falha no sistema eletrônico do hospital. A Polícia Civil requisitou perícia na plataforma para esclarecer o funcionamento da ferramenta.

A técnica de enfermagem Raiza Bentes, que aplicou a dose, declarou que apenas seguiu a prescrição registrada e mostrou o documento para a mãe da criança. Ela disse ainda que aplicou somente a primeira das três doses previstas e que, após a reação adversa, chamou a médica responsável.

Ambas prestaram novo depoimento durante uma acareação realizada em 5 de dezembro, mantendo suas versões anteriores.


Prescrição escondida

Outros profissionais confirmaram que houve tentativa de preservar a prescrição original logo após as complicações. A enfermeira Francineide Macedo e a técnica Tabita Costa relataram que esconderam o documento por temor de que a médica pudesse adulterar o prontuário para corrigir o erro.

Segundo as depoentes, a prescrição ficou guardada no jaleco até ser entregue ao chefe dos técnicos de enfermagem, que manteve o documento.


Mais depoimentos

Entre os dias 4 e 9 de dezembro, a polícia ouviu médicos, enfermeiros, fisioterapeutas e farmacêuticos que atuavam na unidade. Alguns deles afirmaram que a médica teria tentado alterar o prontuário após perceber o erro.

Técnicos de informática também foram ouvidos para esclarecer o funcionamento do sistema de prescrição utilizado pelo hospital.


Superdose e falhas estruturais

De acordo com a coordenadora da UTI pediátrica, Ana Rosa Pedreira Varela, Benício recebeu uma quantidade de adrenalina 15 vezes maior do que a recomendada até mesmo para casos de parada cardiorrespiratória.

Outra médica, Alexandra Procópio da Silva, relatou falta de equipamentos básicos e adequados ao atendimento infantil na UTI, o que, segundo ela, limitou o trabalho da equipe.


Próximos passos

A Polícia Civil deve ouvir novos depoentes nos próximos dias e pretende realizar uma acareação entre a técnica Raiza Bentes e a técnica Rocicleide Lopes, que afirmou ter orientado Raiza a não aplicar 3 ml de adrenalina pela veia.

O gestor do Hospital Santa Júlia também deverá ser ouvido.

O caso segue sendo investigado como homicídio. A médica Juliana Brasil e a técnica Raiza Bentes respondem ao inquérito em liberdade. O Tribunal de Justiça do Amazonas avalia se mantém ou revoga o habeas corpus que impede a prisão preventiva da médica.

foto: Reprodução

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