Narcogarimpo na Amazônia: Crime organizado amplifica desmatamento e lavagem de dinheiro

Grupos criminosos ampliam crimes ambientais e lavagem de dinheiro na Amazônia brasileira.
Redação Imediato Online
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A Amazônia, maior floresta tropical do mundo, tornou-se um epicentro do narcogarimpo, fenômeno em que facções criminosas, como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e dissidências das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc), combinam o tráfico de drogas com crimes ambientais para lucrar e lavar dinheiro. Especialistas reunidos na Conferência de Segurança Internacional do Forte, no Rio de Janeiro, alertam que a valorização de commodities como cocaína e ouro no mercado internacional intensificou a atuação de grupos criminosos em regiões de fronteira entre Brasil, Colômbia, Peru e Bolívia, explorando a fragilidade estatal e causando devastação ambiental e social.

O Fenômeno do Narcogarimpo

O termo narcogarimpo, destacado por especialistas como Robert Muggah, co-fundador do Instituto Igarapé, descreve a integração de atividades como tráfico de cocaína, mineração ilegal de ouro, desmatamento, tráfico de madeira e pecuária ilícita para gerar lucros e lavar dinheiro. Segundo Muggah, mais de 90% do desmatamento na Amazônia é ilegal, e o crime organizado amplifica esse cenário ao diversificar seus negócios. “Eles lavam dinheiro por meio de commodities ambientais, mineração, grilagem de terras e até produção de soja. O narcogarimpo é um negócio de baixo risco e alto retorno”, afirmou ao jornal O Globo.

Um relatório de 2023 do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) aponta que 42 grupos criminosos, incluindo 13 brasileiros, operam na Amazônia, aproveitando a ausência estatal e a alta informalidade econômica nas regiões de tríplice fronteira, como entre Brasil, Colômbia e Peru (rios Caquetá-Japurá, Putumayo e Amazonas) e Brasil, Bolívia e Venezuela. Esses grupos controlam minas ilegais, extorquem mineradores artesanais e estabelecem parcerias transnacionais, como com gangues venezuelanas, para comercializar ouro e cocaína.

Impactos Socioambientais

O narcogarimpo tem causado danos devastadores:

  • Desmatamento: Em 2024, o Brasil foi responsável por 42% da perda global de florestas tropicais primárias, impulsionada por atividades criminosas como mineração, extração de madeira e incêndios intencionais.
  • Contaminação por mercúrio: Usado na mineração de ouro, o mercúrio polui rios e solos, afetando comunidades indígenas, como os Munduruku no Brasil e populações em Madre de Dios, no Peru.
  • Violência: A Amazônia registra altas taxas de homicídios, com 30 assassinatos por 100.000 habitantes em municípios da Amazônia Legal em 2020, contra a média nacional de 24.
  • Deslocamento forçado: Na região de Catatumbo, na fronteira Colômbia-Venezuela, 56 mil pessoas foram deslocadas em dois meses em 2025 devido a conflitos entre grupos criminosos por áreas de cultivo de coca e ouro.
  • Ameaças a indígenas: Líderes indígenas e defensores ambientais, como Dom Phillips e Bruno Pereira, assassinados em 2022 no Vale do Javari, são alvos frequentes.

Lavagem de Dinheiro e Mercados Internacionais

O narcogarimpo é uma ferramenta estratégica para lavagem de dinheiro. Grupos criminosos usam mineração ilegal e exportação de commodities para integrar lucros ilícitos ao mercado legal, muitas vezes com a conivência de empresas multinacionais que negligenciam a rastreabilidade. O ouro ilegal, que supera o valor do tráfico de cocaína em países como Peru e Colômbia, é exportado para mercados na Europa, Estados Unidos e Ásia, frequentemente via paraísos fiscais, offshores e criptomoedas.

  • Ouro: Em Peru e Colômbia, o ouro ilegal gera mais receita que a cocaína, com 80% do ouro peruano e 80-90% do venezuelano extraídos ilegalmente.
  • Cocaína: Cerca de 40% da cocaína sul-americana passa pela Amazônia, com destino à Europa, onde apreensões bateram recordes.
  • Madeira e pecuária: Grupos como o PCC e o Comando Vermelho (CV) investem em madeira e gado para lavar dinheiro, usando documentos falsificados para acessar cadeias legais.

Maria Rosa Sabbatelli, da Comissão Europeia, alerta que a demanda europeia por commodities, se não monitorada, contribui para a degradação ambiental. “Os grupos criminosos operam redes sofisticadas, usando rotas na África e Europa”, afirmou, destacando a presença do PCC na Europa e de máfias albanesas e italianas na América Latina.

Crescimento Durante a Pandemia

A pandemia de Covid-19 intensificou o narcogarimpo. A paralisação dos mercados globais e a redução do policiamento, como a suspensão da fumigação de coca na Colômbia, levaram a um aumento na produção de cocaína. O preço do ouro também disparou, atingindo US$ 3.000 por onça em 2025, incentivando a mineração ilegal. O relatório da UNODC destaca que a ausência de digitalização nos sistemas de rastreamento de ouro facilita a manipulação, permitindo que o PCC, CV e dissidências das Farc integrem lucros ilícitos em mercados legais.

Desafios na Colômbia

Na Colômbia, maior produtora de cocaína, o narcogarimpo impacta a governança e a democracia, segundo Nancy Patrícia Gutiérrez, ex-ministra do Interior. Grupos como Los Comandos de la Frontera, com cerca de 1.000 membros, controlam 21 localidades na tríplice fronteira com Peru e Equador, impondo regras como carteiras de identificação e taxas a trabalhadores locais. Esses grupos diversificaram-se para o garimpo ilegal e o contrabando de migrantes, alimentando corrupção e financiamento político ilícito, como o atentado contra o pré-candidato presidencial Miguel Uribe em Bogotá, em junho de 2025.

Respostas e Cooperação InternacionalA cooperação internacional é vista como essencial para combater o narcogarimpo. Iniciativas recentes incluem:

  • Declaração de Belém (2023): Compromisso de oito países da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (OTCA) para trocar informações e combater crimes ambientais.
  • Centro de Policiamento Internacional em Manaus: Criado em 2024, reúne oficiais de países da OTCA para coordenar ações contra o crime organizado.
  • Operação Green Shield (2025): Liderada pelos Emirados Árabes Unidos via I2LEC, resultou em 94 prisões e apreensão de US$ 64 milhões em ativos ilícitos em Brasil, Colômbia, Equador e Peru, entre 23 de junho e 6 de julho.
  • Iniciativa dos EUA: A Amazon Region Initiative Against Illicit Finance, lançada por Janet Yellen, visa combater lavagem de dinheiro e crimes ambientais, com foco na rastreabilidade de ouro.

Marcello Della Nina, do Itamaraty, destaca que o Brasil propôs protocolos contra crimes ambientais no Tratado da ONU sobre Crime Organizado, além de acordos bilaterais com países amazônicos e europeus. Em Viena, uma resolução de 2025 identificou quatro prioridades: mineração ilegal, tráfico de flora, tráfico de fauna e tráfico de resíduos.

Soluções Propostas

Especialistas sugerem:

  • Fortalecer a rastreabilidade: Implementar sistemas digitais para monitorar ouro e commodities, como propõe a FACT Coalition.
  • Harmonizar legislações: Padronizar leis ambientais entre Brasil, Colômbia, Peru e Bolívia para facilitar ações conjuntas.
  • Apoiar comunidades locais: Incluir indígenas na formulação de políticas, já que são os principais guardiões da floresta.
  • Combater lavagem de dinheiro: Incluir crimes ambientais como delitos precedentes para lavagem de dinheiro nos EUA, permitindo ações contra máfias transnacionais.
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