A deputada federal Carla Zambelli (PL-SP), condenada em maio de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 10 anos de prisão por invasão do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), confirmou estar nos Estados Unidos e anunciou que não pretende retornar ao Brasil. Em entrevista à CNN Brasil na terça-feira (3/06), ela revelou planos de se mudar para a Itália, onde possui cidadania italiana, inicialmente fixando residência em Roma e, posteriormente, no interior do país. Nesta quarta-feira (4/06), o ministro Alexandre de Moraes determinou a prisão preventiva da parlamentar, o bloqueio de seus perfis nas redes sociais, de sua mãe Rita Zambelli e de seu filho João Zambelli, além da inclusão de seu nome na lista vermelha da Interpol, intensificando a busca pela foragida. O caso, que envolve tensões políticas e questões de extradição, ganhou destaque no Amazonas, onde a estabilidade é crucial para eventos como a COP 30 e o Festival de Parintins.
Trajetória de Fuga
Zambelli deixou o Brasil pela Argentina, aproveitando o acordo do Mercosul que permite travessia de fronteira sem notificação às autoridades brasileiras, e de lá voou para os Estados Unidos. Sua assessoria não confirma a localização exata, mas um youtuber brasileiro usou técnicas de geolocalização em um vídeo postado pela deputada, sugerindo que ela está em Fort Lauderdale, na Flórida. A parlamentar alega estar no país para tratar uma condição de saúde, sem especificar detalhes, e planeja se estabelecer na Itália, onde acredita estar protegida por sua cidadania italiana. “Sou intocável lá, a menos que a justiça italiana me prenda”, afirmou à CNN Brasil.
Condenação e Medidas Judiciais
Em 14 de maio de 2025, a Primeira Turma do STF condenou Zambelli por unanimidade a 10 anos de prisão e à perda do mandato pelos crimes de:
- Invasão de dispositivo informático (art. 154-A do Código Penal).
- Falsidade ideológica (art. 299 do Código Penal).
A denúncia da Procuradoria-Geral da República (PGR) aponta que Zambelli, como autora intelectual, orientou o hacker Walter Delgatti Neto a invadir o sistema do CNJ em 4 de janeiro de 2023, inserindo 16 documentos falsos, incluindo um mandado de prisão falso contra Alexandre de Moraes. A ação, dias antes dos atos golpistas de 8 de janeiro, visava deslegitimar o Judiciário. A Polícia Federal (PF) encontrou provas nos dispositivos da deputada, incluindo pagamentos a Delgatti.
Moraes, relator do caso, determinou na quarta-feira:
- Prisão preventiva: Por Zambelli ser considerada foragida e representar risco à ordem pública.
- Bloqueio de redes sociais: Perfis da deputada, de Rita Zambelli (mãe e administradora de suas páginas) e João Zambelli (filho e pré-candidato a vereador) foram suspensos para evitar incitação a crimes ou desinformação. Plataformas que descumprirem pagarão R$ 100 mil diários.
- Inclusão na Interpol: A PF acionou a lista vermelha para localizar e extraditar Zambelli.
- Bloqueio de bens: Contas bancárias, salário parlamentar, carros e imóveis foram congelados.
- Suspensão de passaportes: Incluindo os documentos de Zambelli e familiares.
Zambelli também responde por porte ilegal de arma e constrangimento ilegal em outro processo, após perseguir um jornalista com uma pistola em 2022, com maioria formada no STF por 5 anos e 3 meses de prisão, mas suspenso por um pedido de vista de Kassio Nunes Marques.
Possibilidades de Extradição
Zambelli acredita que sua cidadania italiana a protegerá na Itália, mas especialistas divergem. O doutor em Direito Constitucional Fernando Capano explica:
- Estados Unidos: O Brasil mantém um tratado de extradição com os EUA (Decreto nº 66.293/1970), facilitando a entrega de não-cidadãos condenados por crimes com sentença transitada em julgado. Como Zambelli não é cidadã americana, sua extradição seria menos burocrática, especialmente por crimes graves como invasão de sistemas e falsidade ideológica.
- Itália: O tratado de extradição Brasil-Itália (Decreto nº 863/1993) permite a entrega de cidadãos, mas a Constituição italiana (art. 26) proíbe a extradição de cidadãos italianos, salvo em casos de crimes contra a humanidade ou obrigação por tratados internacionais. Zambelli, como cidadã italiana, poderia evitar a extradição, mas a justiça italiana pode iniciar um processo local com base nas provas fornecidas pelo Brasil, especialmente se ela continuar publicando conteúdos contra o STF.
A PGR já notificou autoridades americanas e italianas via Interpol, e a PF monitora movimentos de Zambelli. A falta de clareza sobre sua localização (EUA ou Itália) e a cidadania italiana complicam o processo, mas a pressão internacional pode limitar sua mobilidade.