A Polícia Civil do Rio de Janeiro (PCERJ) deflagrou na terça-feira (4) uma megaoperação para desmantelar o núcleo financeiro da facção criminosa Comando Vermelho (CV), responsável pela lavagem de mais de R$ 250 milhões oriundos do tráfico de drogas e da compra de armamentos de uso restrito. Entre os alvos está a influenciadora Viviane Noronha, esposa do cantor MC Poze do Rodo, apontada como beneficiária de recursos ilícitos canalizados por meio de laranjas. A ação, que mobilizou 200 policiais, cumpre 35 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro e em São Paulo, além de bloquear 35 contas bancárias, causando um impacto significativo nas finanças da facção.
Detalhes da Operação
A operação, conduzida pelas Delegacias de Roubos e Furtos (DRF), Repressão a Entorpecentes (DRE), e pelo Departamento Geral de Combate à Corrupção, ao Crime Organizado e à Lavagem de Dinheiro (DGCOR-LD), revelou uma complexa rede de lavagem de dinheiro que utilizava pessoas físicas e jurídicas para ocultar a origem ilícita dos lucros do CV. Segundo o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), Viviane Noronha recebeu cerca de R$ 1 milhão em depósitos, sendo R$ 858 mil para sua empresa e R$ 40 mil em sua conta pessoal, provenientes de laranjas ligados ao traficante Fhillip Gregório da Silva, conhecido como Professor, morto no domingo (1º/06) no Complexo do Alemão.
A investigação aponta que Viviane, com 2,9 milhões de seguidores no Instagram, desempenhava um papel simbólico no esquema, conectando o tráfico ao universo do consumo digital e promovendo a narcocultura nas redes sociais. Sua empresa, voltada para produtos de cuidados capilares, teria sido usada para lavar dinheiro, recebendo transferências de operadores financeiros do CV. A polícia destaca que a influenciadora conferia uma “aparência de legitimidade” aos valores ilícitos, ampliando o alcance da facção.
Estrutura do Esquema
O núcleo financeiro do CV utilizava diversas frentes para lavar dinheiro:
- Baile da Escolinha: Organizado por Professor, o evento no Complexo do Alemão funcionava como ferramenta de captação de recursos e dominação cultural, gerando lucros com a venda de drogas e ingressos. Cada baile movimentava cerca de R$ 600 mil, segundo a PCERJ.
- Restaurante Picanha do Juscelino: Localizado em frente ao local do baile, no Complexo do Alemão, era um ponto de lavagem de dinheiro, operando como fachada para movimentar recursos do tráfico.
- Leleco Produções: Uma produtora de eventos, comandada por Leonardo dos Santos Oliveira, promovia bailes funk ligados ao CV, que serviam como pontos de venda de drogas e difusão da narcocultura. A empresa recebia recursos de operadores da facção, como Nikolas Fernandes Soares (MK), segurança do traficante Edgar Alves de Andrade (Doca), chefe do CV no Complexo do Alemão.
- Empresas de fachada: Outras firmas, como a GM de Jesus Produções Ltda., operada por Gustavo Miranda de Jesus, foram identificadas como laranjas, com movimentações financeiras incompatíveis com sua capacidade econômica, reforçando a suspeita de dissimulação patrimonial.
Um dos investigados, Mohamed Farah de Almeida, é procurado pelo FBI por suspeita de operar valores para a Al-Qaeda, segundo dados de cooperação internacional, indicando a sofisticação do esquema financeiro do CV.
Morte do Professor
Fhillip Gregório da Silva, o Professor, era uma figura central no esquema, responsável por estruturar empresas de fachada e consolidar a cultura do tráfico por meio de eventos como o Baile da Escolinha. Ele foi encontrado morto no domingo (1º/06) com um tiro na cabeça no Complexo do Alemão. A principal hipótese é suicídio após uma briga com sua amante, mas a polícia não descarta outras possibilidades. Apesar de sua morte, a PCERJ afirma que o inquérito não será comprometido, dada a relevância histórica de Professor na rede financeira do CV.
MC Poze e Viviane Noronha
MC Poze do Rodo (Marlon Brandon Coelho Couto) teve sua prisão temporária revogada na segunda-feira (3) pelo desembargador Peterson Barroso Simão, da 2ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio. Ele foi preso em 29 de maio por apologia ao crime, tráfico de drogas, e associação ao tráfico, mas a Justiça considerou que o material apreendido (joias, celular, e uma BMW X6) era suficiente para as investigações, sem necessidade de mantê-lo detido. Poze deve cumprir medidas cautelares, como:
- Comparecer à Justiça a cada 10 dias;
- Não deixar o Rio de Janeiro;
- Não manter contato com investigados ou membros do CV.
A investigação contra Poze, focada em sua participação em bailes funk em áreas dominadas pelo CV e na narcocultura de suas músicas, é distinta da que envolve Viviane Noronha. A polícia destaca que shows de Poze em comunidades como Cidade de Deus e Jacaré contavam com a presença de traficantes armados com fuzis, reforçando a conexão com a facção.
Viviane, por sua vez, é alvo de um mandado de busca e apreensão em sua residência no Recreio dos Bandeirantes, Zona Oeste do Rio, onde mora com Poze. Ela também enfrenta uma investigação por calúnia após postar um vídeo no Instagram em 30 de maio, acusando policiais de furtarem joias (um bracelete e uma corrente de ouro) e uma bolsa Carolina Herrera durante a prisão de Poze. A PCERJ negou as acusações, afirmando que todas as apreensões foram documentadas e filmadas, e abriu um inquérito contra a influenciadora.
Viviane e Poze, casados desde outubro de 2024 após uma cerimônia no Rock in Rio, já haviam sido alvos da Operação Rifa Limpa em novembro de 2024, que investigava sorteios ilegais nas redes sociais. Na ocasião, joias e carros de luxo foram apreendidos, mas devolvidos por falta de provas de ligação com os crimes.