Manaus-AM| Nesta quinta-feira (14), o ‘Além do Crime’ vai abordar um caso que até hoje é um mistério, o assassinato do menino Jairzinho, de 8 anos, no São Francisco, encontrado morto nos terrenos da igreja católica do bairro, em 1991. Em dezembro de 2021 o crime completou 30 anos.
Para relembrar os fatos, a jornalista Bruna Chagas e a advogada Penélope Antony, recebem o designer e proprietário do site ‘No Amazonas é assim’, Marcus Pessoa e um dos investigadores do caso Hilton Ferreira, que atualmente apresenta o programa ‘Segurança Agora’, no Imediato. O podcast é ao vivo e será transmitido a partir das 19h, na Rádio ZLZN e nas plataformas do site Imediato.


Relembre o caso
Artigo escrito por Marcus Pessoa*
No início dos anos 90, um crime assombrou a zona sul de Manaus, mais especificamente no bairro São Francisco. O crime contra uma criança marcou toda uma geração. Em dezembro de 2021 o crime completou 30 anos. Ocorrido em 28 de dezembro de 1991 no bairro de São Francisco o crime marcou o fim de ano e durou até o dia 01 de janeiro de 1992, quando teve desfecho dessa história macabra.
Esse é um daqueles casos cujos desdobramentos se arrastam por anos e, de forma abrupta, desaparecem dos noticiários. Como o assassinato de uma rica família, dona de uma transportadora, desaparece tão rápido dos grandes jornais da capital? O Caso Jairzinho, diferente dos casos do Monstro da Colina ou do Morto-vivo do Morro da Liberdade, tem uma construção narrativa mais difícil, pois até hoje, de acordo com aqueles que foram contemporâneos ao crime, teve uma conclusão ainda envolta de incertezas.

Tratava-se de uma criança muito alegre e conhecido na região, o Jair de Figueiredo Guimarães, ou simplesmente Jairzinho. Um menino muito querido por todos e que sua alegria contagiava seus vizinhos do bairro de São Francisco. Certo dia, Jairzinho desapareceu misteriosamente e todos ficaram apreensivos.
O pai do Jairzinho, que era um costumeiro beberrão, ficou muito nervoso com o sumiço do filho e agia com medo de falar aonde estava o seu filho. Sua atitude logo despertou suspeita em todos. Conforme foram percebendo que o menino não voltava pra casa, todos começaram a procurá-lo por dias e dias, até que o encontraram de uma forma inimaginável.
Certo dia, um grupo de garotos estava jogando bola nas proximidades da Paróquia, e um deles conseguiu jogar a bola para dentro do terreno da igreja. Todos ficaram apreensivos, pois o muro era alto e o único jeito de entrar lá era acessando a casa do pároco, então, um deles decidiu pular o muro para ir buscar a bola. Neste momento, ele se deparou com os restos mortais do Jairzinho.
Jairzinho havia sido estrangulado com um torniquete e o assassino ainda jogou ácido sobre o corpo dele para evitar que o cheiro forte fosse sentido por quem frequentava a igreja. Para a surpresa de todos, inclusive do pai do Jairzinho, o menino acabara de ser encontrado no quintal da igreja de São Francisco, há poucos metros da janela do quarto do frei Silvestre, o pároco à época.
Foi um espanto para todos do bairro nesse dia! Uma comoção generalizada tomou conta da multidão que se esforçava para encontrá-lo vivo. Muita gente até chorava por conta do Jairzinho. Não demorou muito para que se começassem a especular quem havia matado-o, inclusive, no início, suspeitou-se até que pudesse ter sido ritual de magia negra! Uns diziam que o pai do menino o matou como sacrifício para poder se dar bem com um bar que ele tinha para ser rico, e até hoje há quem sustente esta história.
À época, um dos jornais da cidade chegou a reproduzir, na capa e por toda a sua extensão, o cadáver do menino após o efeito do ácido e a ressecação do sol.
Apesar de toda a investigação, a história sobre a morte do Jairzinho nunca ficou muito bem esclarecida. À época foram acusadas várias pessoas como suspeitas tais como: o pai do Jairzinho (Jair de Figueiredo Guimarães), o pároco (o frei Silvestre), o sr. Aristeu (um comerciante da área) e até um lanterneiro, conhecido por Afrânio Cardoso de Moraes, de 19 anos, que fazia serviços braçais perto da comunidade como limpar terreno, varrer tabernas, jardinagem, etc.
Afrânio foi preso em uma blitz de rua após ter comentado com um colega de cela que tinha sido o autor do golpe que matou Jairzinho. Levado à Delegacia, confessou que cometeu o crime a mando de Frei Silvestre, da paróquia daquele bairro.
O frei Silvestre foi ouvido pela Polícia, sendo constatado que nada havia contra ele. Porém, foi apresentado à polícia uma carta na qual o pai da criança pedia uma grande soma de dinheiro para sequestrar o próprio filho. Desconfiado, o titular da Delegacia Especializada de Homicídios e Sequestros solicitou um exame grafológico, no qual foi confirmado que aquela carta fora escrita pelo pai de Jairzinho.
Jair Guimarães, negando a todo momento o crime, teve decretada a prisão preventiva, sendo levado para a Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa.
Anos depois, durante um programa de rádio chamado ‘Os Patrulheiros da Cidade’, na extinta Rádio Ajuricaba, apontava que um rapaz havia morto o Jairzinho porque seu pai o devia dinheiro.
Esse assassino confesso, disse ainda que tirou a vida do menino para provar ao pai do menino que com dívida não se brinca, e disse mais, disse que jogou o corpo atrás da igreja pra incriminar o padre.
Em 1995, o Promotor João Bosco Valente, reviu o caso, pediu o arquivamento do processo pela confusão e falta de provas.
Hoje em dia
Alguns contam que ainda é possível ver o espírito e sentir a presença do Jairzinho no quintal da paróquia, outros, afirmam ter medo, até hoje, de andar no quintal da paróquia por muita gente dizer que ouvia vozes e barulho do balanço da escola, que fica por trás da igreja, como se fosse o Jairzinho a se divertir, essa parte sobrenatural, que alimenta e atrai, pode indicar o fato de que o mesmo nunca desencarnou.
O pai do Jairzinho, o sr. Jair de Figueiredo Guimarães hoje é técnico em eletrônica e continua a morar próximo à igreja de São Francisco de Assis, na rua Valério Botelho de Andrade, no mesmo local, que há 28 anos viu moradores protestarem em frente a sua residência, fixando faixas e cartazes pedindo justiça…
Alguns pontos ainda precisam ser mais detalhados nessa publicação e iremos nos esforçar para buscarmos essa informação : 4) O que ocorreu com o pai do Jairzinho depois desse episódio; 5) Alguma foto da época;
Se você souber responder qualquer um desses questionamentos, ou tiver mais informações, deixe nos comentários.
Parte do artigo de historiador do Jornal do Comércio
Outro artigo escrito pelo historiador Fábio Augusto de Carvalho traz novas informações, confira:
Após as análises do perito da Universidade de Campinas, o médico Nelson Mansini, o mesmo que realizou a perícia do assassinato de Chico Mendes, foi constatado que Jair de Figueiredo Guimarães foi morto estrangulado pelo método do torniquete, processo bastante utilizado para estancar hemorragias. Antes, um dos suspeitos afirmara que matou a criança com um forte golpe na cabeça. Outras pessoas entrevistadas pelo historiador, afirmavam que o garoto fora estuprado e teve o órgão genital cortado, e que seu assassino jogou soda cáustica ou ácido para disfarçar o odor do cadáver. Ainda de acordo com a perícia, no dia em que o corpo foi encontrado já haviam se passado 11 ou 12 dias do assassinato.
Os suspeitos
No Jornal do Comércio de 07 de fevereiro de 1992, a principal manchete informava que ‘o suspeito do crime está preso’. Era o lanterneiro Afrânio Cardoso de Moraes, de 19 anos. Ele foi preso em uma blitz de rua após ter comentado com uma pessoa que tinha sido o autor do golpe que matou Jairzinho. Levado à Delegacia, confessou que cometeu o crime a mando de Frei Silvestre, da paróquia daquele bairro.
Afrânio disse que, passando em frente a Igreja de São Francisco, foi chamado pelo Frei que perguntou se este não queria ganhar algum dinheiro. Perguntando qual era o serviço, ouviu do religioso que era para pegar um garoto que estava jogando bola e levá-lo para os fundos da Igreja. Afrânio afirmou que, quando recebeu aquele pedido, estava embriagado, aceitando-o sem qualquer objeção. Chegando ao local, disse que o Frei disse o seguinte para a criança: “Eu não disse que você estava me devendo uma”? Jairzinho disse que não sabia de nada. Foi nesse momento que Frei Silvestre ordenou que Afrânio golpeasse o menor. O lanterneiro disse que não bateu com força, saindo correndo da cena do crime. Soube dias depois que Jairzinho tinha morrido. Ao delegado, dizia-se arrependido e que não tinha intenção de matar.
O possível envolvimento de um membro do clero causou grande reboliço nas lideranças católicas da cidade, com o monsenhor da capital afirmando que “há alguém por trás fazendo com que a Igreja Católica seja desacreditada”. O Arcebispo Metropolitano de Manaus não quis se pronunciar a respeito do caso. Dias após essa matéria, a Arquidiocese de Manaus, O Centro de Defesa dos Direitos Humanos da CNBB Norte I e outras entidades da Igreja Católica se manifestaram sobre os rumos que as investigações estavam tomando. Para esses grupos, elas atingiram “pessoas e instituições, causaram prejuízos morais, retardando a elucidação do crime e confundindo a opinião pública”. Afirmavam também que estavam sendo forjados suspeitos e culpados.
Também foi investigado um senhor dono de um mercado próximo ao local do crime, mas contra ele nada foi comprovado.
Em 29 de dezembro de 1994, após três anos do assassinato de Jairzinho, mais um suspeito era investigado: Jair de Figueiredo Guimarães, técnico em eletrônica, morador da rua Valério Botelho de Andrade, em frente a Igreja. Quem era ele? O pai da criança assassinada. Nesse mesmo dia, os moradores do bairro protestavam em frente a sua casa, fixando faixas e cartazes pedindo justiça.
Jair Guimarães, negando a todo momento o crime, teve decretada a prisão preventiva, sendo levado para a Cadeia Pública Raimundo Vidal Pessoa. Mas como se chegou a mais esse suspeito? O frei Silvestre foi ouvido pela Polícia, sendo constatado que nada havia contra ele. O que levou Jair Guimarães à prisão foi a existência de uma carta na qual o pai da criança pedia uma grande soma de dinheiro para sequestrar o próprio filho. Desconfiado, o titular da Delegacia Especializada de Homicídios e Sequestros solicitou um exame grafológico, no qual foi confirmado que aquela carta fora escrita pelo pai de Jairzinho. Dessa forma, o representante do Ministério Público do 1° Tribunal do Júri Popular, ao denunciar Jair Guimarães, enquadrou-o nas sanções de homicídio qualificado com o agravante da ocultação de cadáver. Moradores de São Francisco afirmavam que ele era alcoólatra e viciado em drogas. Em 1995 o Promotor João Bosco Valente reviu o caso, pensando seriamente em pedir o arquivamento do processo pela confusão e falta de provas. Uma pessoa, que não quis se identificar, afirma que, anos depois, ouviu por uma rádio que uma pessoa tinha se entregado, afirmando ter matado a criança porque seu pai lhe devia dinheiro.
Falta de paciência de um Frei, por causa das brincadeiras de uma criança? As ações de um comerciante, com motivações ainda não esclarecidas? Um pai em um momento de descontrole? Acerto de contas? Quem, de fato, matou Jairzinho naquele final de ano de 1991? Essa é uma de várias perguntas cujas respostas nem o tempo foi capaz de dar…
FONTES:
Jornal do Comércio, 07 de fevereiro de 1992.
Jornal do Comércio, 29 de dezembro de 1994.
Jornal do Comércio, 29 de abril de 1995.
Edição: Bruna Chagas