Uma rotina de exercícios físicos e uma vida ativa foram interrompidas por febres, dores intensas e um cansaço inexplicável. Foi assim que uma mulher, identificada nesta reportagem pelo nome fictício de Maria para preservar a identidade da vítima, começou a perceber que algo estava errado.
Ela conta que conheceu o dentista Jean José Dunga de Oliveira, de 41 anos, por meio de um site de relacionamentos. Os dois começaram a namorar e, segundo Maria, o relacionamento inicialmente era marcado por proximidade e confiança.
Menos de um mês depois, porém, ela passou a apresentar diversos sintomas, como infecções persistentes, dores no corpo, vermelhidão, coceira, dor de cabeça e cansaço. Após realizar exames para investigar uma possível infecção sexualmente transmissível, recebeu o diagnóstico positivo para HIV.
“Com certeza posso afirmar que foi o momento mais triste e mais difícil da minha vida”, relatou.
Segundo Maria, antes do diagnóstico, Jean teria sugerido que ela utilizasse um antibiótico e que não contasse à família que os sintomas persistiam. A situação levantou suspeitas e contribuiu para que ela buscasse atendimento médico.
Ao procurar uma infectologista, Maria descobriu que o homem com quem se relacionava já era investigado pelo Ministério Público de Rondônia (MP-RO) em denúncias envolvendo outras mulheres.
“Eu era mais uma vítima do Jean”, afirmou.
De acordo com o MP-RO, pelo menos quatro mulheres foram acolhidas pelo Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit) e relataram situações semelhantes. O órgão aponta que Jean teria conhecimento de sua condição sorológica há anos e, segundo a acusação, teria transmitido o vírus de forma intencional.
O caso de Maria resultou na prisão do dentista em 10 de junho. Em 24 de agosto, ele foi condenado a cinco anos de prisão em regime semiaberto, além do pagamento de R$ 50 mil de indenização à vítima. A defesa pode recorrer da decisão.
Jean também responde a outros processos envolvendo denúncias de outras mulheres. Nesta semana, o Ministério Público pediu uma nova prisão preventiva, alegando risco de novas vítimas. O pedido foi aceito pela Justiça, e o dentista voltou a ser preso em regime fechado.
Além do impacto causado pelo diagnóstico, Maria afirma enfrentar o medo do preconceito e da exposição de sua família.
“Além de eu estar com uma doença incurável, fui contaminada de forma intencional, ou seja, de forma criminosa”, afirmou.
A infectologista Mariana Vasconcelos explica que, atualmente, pessoas vivendo com HIV podem ter qualidade e expectativa de vida semelhantes às da população geral quando realizam o tratamento corretamente. A terapia antirretroviral pode reduzir a carga viral a níveis indetectáveis, impedindo a transmissão sexual do vírus.
Onde buscar ajuda
Pessoas que acreditam ter sido expostas ao HIV podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou UPA para realizar o teste gratuitamente e de forma sigilosa. Também existe o autoteste, disponível em farmácias.
Em Rondônia, vítimas de violência podem buscar atendimento no Núcleo de Atendimento às Vítimas (Navit) do Ministério Público:
WhatsApp: (69) 99906-6411
Telefone: (69) 98408-9931
As vítimas também podem procurar as Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (Deam) ou outras unidades da Polícia Civil e Militar.
“Não se sinta culpada. Parece o fim do mundo, mas não é. Procure ajuda no Navit ou nas delegacias especializadas. Que vocês saibam que não estão sozinhas nessa luta”, aconselha Maria.