Um grupo formado por policiais civis do Amazonas e de Roraima, um influenciador digital e outras pessoas é investigado por suspeita de participar de um esquema que teria utilizado o aparato policial para simular uma operação e roubar cerca de 30 quilos de ouro e R$ 800 mil em espécie. O crime aconteceu em 29 de março deste ano, em uma residência no bairro Caçari, na Zona Leste de Boa Vista, em Roraima.
A investigação é conduzida pela Delegacia de Repressão às Ações Criminosas Organizadas (Draco), que identificou oito pessoas como suspeitas de participação no esquema.
Entre os investigados estão o influenciador digital Ivan Luiz Bastos Guimarães, conhecido como “Itz Ivan”, o delegado da Polícia Civil do Amazonas John Allan Cunha Castilho e o investigador Diego Gabriel Rodrigues de Araújo, também da Polícia Civil do Amazonas.
Como o roubo teria sido planejado
Segundo a Draco, o grupo teria planejado uma ação para fazer parecer que se tratava de uma abordagem policial legítima.
Para isso, os suspeitos teriam utilizado distintivos, fardamentos e uma viatura descaracterizada. O objetivo seria entrar no imóvel onde ocorria uma negociação de ouro e retirar os valores sem levantar suspeitas.
De acordo com as investigações, Ivan era proprietário da residência e conhecia detalhes sobre a negociação. Ele teria utilizado essas informações para ajudar no planejamento do roubo.
Durante a ação, ainda segundo a polícia, o influenciador teria se apresentado como uma das vítimas, numa tentativa de afastar qualquer suspeita sobre sua participação.
Policiais do Amazonas são apontados como articuladores
O delegado John Allan Cunha Castilho, da Polícia Civil do Amazonas, é apontado pela investigação como um dos responsáveis pela articulação do esquema. Segundo a Draco, ele seria primo de Ivan e teria ajudado a organizar a ação.
Ainda conforme a investigação, John Allan teria recrutado o investigador Diego Gabriel Rodrigues de Araújo e participado da retirada dos valores de Roraima para o Amazonas.
Os dois policiais civis do Amazonas foram presos na quarta-feira (26).
Investigador de Roraima teria comandado falsa abordagem
O investigador da Polícia Civil de Roraima Marcelo Henrique de Araújo Sobral também é apontado como participante do esquema.
Segundo a Draco, ele teria comandado a falsa abordagem dentro da residência onde acontecia a negociação do ouro.
Após o roubo, o policial teria tentado dar aparência de legalidade à ação ao registrar um boletim de ocorrência como uma suposta “averiguação de rotina”.
Marcelo foi afastado das funções e passou a utilizar tornozeleira eletrônica por determinação judicial.
Grupo de WhatsApp teria organizado o crime
As investigações apontaram que o planejamento teria sido realizado por meio de um grupo de WhatsApp criado dois dias antes do roubo.
O grupo recebeu o nome de “Planos de ficar rico.com” e, segundo a Draco, teria sido utilizado para distribuir funções entre os envolvidos e acompanhar o andamento da ação.
Depois do crime, uma mensagem com a palavra “Bingo” teria sido enviada às 19h59. Para os investigadores, a mensagem indicaria que o grupo considerava a ação concluída.
Dinheiro teria sido dividido entre envolvidos
A investigação financeira também apontou possíveis pagamentos relacionados ao crime.
Segundo a Draco, Marcelo Henrique teria recebido pelo menos R$ 200 mil. Outros R$ 180 mil teriam sido destinados a contas bancárias da esposa dele, Ariane Cabral Paes.
Ainda conforme a investigação, R$ 150 mil teriam sido prometidos a Guilherme Santana da Silva, cunhado do investigador e apontado como um dos participantes da invasão ao imóvel.
Os investigadores também apuram a negociação posterior do ouro roubado, que teria ocorrido com auxílio de familiares de policiais envolvidos no esquema.
Oito pessoas são investigadas
Além de Ivan Luiz Bastos Guimarães, John Allan Cunha Castilho, Diego Gabriel Rodrigues de Araújo e Marcelo Henrique de Araújo Sobral, também são investigados:
Guilherme Santana da Silva;
Rayana Cabral Paes;
Ariane Cabral Paes;
Silvan André Santos da Silva.
Segundo as informações da investigação, Guilherme e Rayana estão sendo monitorados por tornozeleira eletrônica. Ariane foi liberada, mas está submetida a medidas judiciais.
Silvan André Santos da Silva, apontado como informante ligado à Polícia Civil de Roraima, é considerado foragido.
Investigação começou após denúncia do comprador do ouro
A apuração avançou depois que o verdadeiro comprador do lote de ouro procurou as autoridades e relatou ter sido vítima do roubo.
A partir da denúncia, os investigadores passaram a analisar informações sobre veículos, movimentações financeiras e outros elementos relacionados ao crime.
O cruzamento dessas informações teria permitido identificar pessoas envolvidas na preparação e execução da falsa operação policial.
Influenciador foi preso em Santa Catarina
Ivan Luiz Bastos Guimarães, conhecido como “Itz Ivan”, foi preso no dia 21 de agosto, em Florianópolis, Santa Catarina.
Segundo a investigação, depois do roubo em Boa Vista, ele teria deixado Roraima, passado por Manaus e posteriormente seguido para Santa Catarina.
A Draco também aponta que o influenciador teria adquirido imóveis de alto valor após o crime. Essas movimentações são analisadas pelos investigadores como parte da apuração financeira do esquema.
Defesa de delegado nega participação
A defesa do delegado John Allan Cunha Castilho afirmou ter sido surpreendida com a prisão e negou a participação dele no roubo.
Os advogados também destacaram que o delegado é servidor público concursado e não possui antecedentes criminais.
As acusações ainda estão sendo investigadas e deverão ser analisadas pela Justiça.
Investigação continua
A Polícia Civil continua apurando a participação individual de cada um dos investigados, a origem e o destino do dinheiro e do ouro roubados e a eventual participação de outras pessoas.
O caso também deverá esclarecer como policiais civis teriam utilizado recursos e elementos associados à atividade policial para executar a falsa abordagem.
Os investigados permanecem sujeitos às decisões judiciais. Todos têm direito à presunção de inocência e só poderão ser considerados culpados após eventual condenação definitiva.