Rombo na Saúde: SUS gasta quase R$ 450 milhões com vítimas do trânsito em 2024 e deixa de receber verba do extinto DPVAT

Sistema Único de Saúde gasta quase R$ 450 milhões com vítimas de acidentes de trânsito, dinheiro que poderia ser usado para ampliar a frota de ambulâncias do Samu.
Redação Imediato Online
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O Sistema Único de Saúde (SUS) desembolsou aproximadamente R$ 449 milhões apenas em 2024 para custear internações e atendimentos de vítimas de acidentes de trânsito em todo o país. O número foi revelado em um levantamento inédito do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), com base nos dados do Datasus, e evidencia o impacto crescente da violência no trânsito sobre os cofres públicos.

O montante cobre desde os atendimentos de emergência até a reabilitação prolongada dos pacientes, incluindo o fornecimento de órteses e próteses. Para se ter uma ideia, o valor seria suficiente para adquirir 1.320 ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), número quase quatro vezes maior que as 350 previstas no Novo PAC Saúde para atender 5,8 milhões de brasileiros.

Essas ambulâncias extras poderiam ampliar a cobertura do Samu para cerca de 22 milhões de pessoas — uma diferença significativa em um país onde o acesso ao socorro imediato ainda é desigual.

Gastos aumentam e prevenção segue negligenciada

Segundo o Ipea, os custos com internações de vítimas do trânsito têm aumentado constantemente. Desde 1998, o crescimento real foi de 49%, o que revela uma escalada de despesas sem o devido acompanhamento de políticas preventivas eficazes.

“Estamos diante de um modelo de mobilidade individual, priorizado em detrimento do coletivo, que não se preparou adequadamente. Isso gera um sistema caro, ineficaz e perigoso”, afirma Victor Pavarino, técnico em segurança viária da Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), ligada à OMS.

Para especialistas, parte significativa desses gastos poderia ser evitada com investimentos em educação no trânsito, fiscalização, urbanismo inteligente e infraestrutura segura.

“Gastamos para remediar as tragédias causadas pela insegurança viária, quando o ideal seria investir em prevenção e evitar que essas vidas sejam perdidas”, alerta Ricardo Pérez-Núñez, assessor regional da OPAS.

Fim do DPVAT agravou cenário financeiro

Desde 2021, o SUS perdeu também uma importante fonte de financiamento para o atendimento a vítimas de acidentes: o repasse de recursos do extinto seguro DPVAT, que injetava anualmente cerca de R$ 580 milhões no sistema público de saúde. Quase metade da arrecadação do seguro era destinada diretamente ao custeio de atendimentos médico-hospitalares.

O fim do DPVAT foi aprovado pelo Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), com a justificativa de evitar fraudes e reduzir os custos de fiscalização. No entanto, a lacuna deixada por sua extinção ainda não foi preenchida.

Em 2024, o governo chegou a propor a criação do SPVAT (Seguro Obrigatório para Proteção de Vítimas de Acidentes de Trânsito), mas, diante da pressão política e da resistência da sociedade contra um novo encargo para os motoristas, a proposta foi revogada antes mesmo de entrar em vigor.

“É um retrocesso que compromete o atendimento às vítimas. A ausência desses recursos sobrecarrega ainda mais o SUS e deveria ser reavaliada com urgência”, afirma Carlos Henrique Ribeiro de Carvalho, pesquisador do Ipea.

Enquanto isso, o país registra uma média de 95 mortes por dia causadas por acidentes de trânsito — um dado alarmante que escancara não só o custo financeiro, mas o drama humano dessa epidemia silenciosa nas ruas e estradas do Brasil.

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