Em um marco para a busca por justiça, a Justiça Federal do Amazonas aceitou, nesta segunda-feira, 21 de julho de 2025, a denúncia do Ministério Público Federal (MPF) contra Ruben Dario da Silva Villar, conhecido como Colômbia, apontado como mandante dos assassinatos do indigenista Bruno Pereira e do jornalista britânico Dom Phillips. Os crimes, que chocaram o Brasil e o mundo, ocorreram em 5 de junho de 2022, na região do Vale do Javari, extremo oeste do Amazonas. A denúncia foi formalizada pelo procurador da República Guilherme Diego Rodrigues Leal, com apoio do Grupo de Apoio ao Tribunal do Júri (GATJ), na Subseção Judiciária Federal de Tabatinga (AM), onde o processo tramita.
Detalhes da Denúncia
Segundo o MPF, Colômbia liderava uma organização criminosa voltada para a pesca e caça ilegais na Terra Indígena Vale do Javari, a segunda maior área indígena do Brasil, localizada na tríplice fronteira entre Brasil, Peru e Colômbia. O grupo atuava de forma estruturada, com Colômbia fornecendo embarcações, armas e combustível para as atividades ilícitas, revendendo os produtos no mercado internacional. A denúncia aponta que Bruno Pereira, que trabalhava na fiscalização ambiental junto à União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), e Dom Phillips, que coletava material para um livro sobre a Amazônia, foram assassinados por contrariar os interesses do grupo criminoso.
Os homicídios foram executados por Amarildo da Costa Oliveira (“Pelado”), Jefferson da Silva Lima (“Pelado da Dinha”) e Oseney da Costa de Oliveira (“Dos Santos”), que agiram sob as ordens de Colômbia. O MPF destaca que os crimes foram cometidos por motivo torpe, mediante emboscada e com recursos que dificultaram a defesa das vítimas. No caso de Dom Phillips, o assassinato teve como objetivo ocultar o crime contra Bruno e garantir a impunidade.
Contexto do Crime
Bruno Pereira, 41 anos, era um renomado indigenista, ex-servidor da Funai, e atuava na Univaja para proteger povos indígenas isolados. Dom Phillips, 57 anos, jornalista do The Guardian, documentava a realidade da Amazônia. Em 5 de junho de 2022, após visitarem a comunidade de São Rafael, os dois viajavam de barco pelo rio Itaquaí, rumo a Atalaia do Norte, quando foram emboscados e mortos a tiros. Seus corpos, encontrados dez dias depois, foram esquartejados, queimados e enterrados, conforme a perícia. A confissão de Amarildo da Costa Oliveira foi crucial para localizar os restos mortais.Situação Processual
- Colômbia: Preso preventivamente desde dezembro de 2022, Villar, que é peruano, também responde por tráfico de drogas, pesca ilegal e uso de documento falso. Ele foi indiciado pela Polícia Federal (PF) em 1º de novembro de 2024, como mandante do crime, e agora é réu após a aceitação da denúncia pelo juiz federal Eduardo Hertz. O processo segue em Tabatinga, e o sigilo dos autos foi levantado a pedido do MPF, garantindo transparência.
- Executores: Amarildo e Jefferson aguardam julgamento por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáver em júri popular. Oseney, em prisão domiciliar com monitoramento eletrônico, teve sua exclusão do júri popular determinada pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região em janeiro de 2025, mas o MPF recorreu ao Superior Tribunal de Justiça (STJ).
- Outros Envolvidos: Em junho de 2024, a Justiça aceitou denúncias contra Francisco Conceição de Freitas, Eliclei Costa de Oliveira, Amarílio de Freitas Oliveira, Otávio da Costa de Oliveira e Edivaldo da Costa de Oliveira por participação na ocultação dos corpos, envolvendo até um menor de idade.
Desaforamento do Júri
Na sexta-feira, 18 de julho de 2025, o MPF solicitou o desaforamento do julgamento dos executores, pedindo que o júri popular ocorra em Manaus, em vez de Tabatinga, para garantir imparcialidade e segurança. O pedido reflete preocupações com a influência de Colômbia sobre comunidades locais e os riscos de intimidação no Vale do Javari.