José Miguel Castro, ex-gerente municipal de Lima durante a gestão da ex-prefeita Susana Villarán (2011-2014) e colaborador-chave no caso de corrupção envolvendo as construtoras brasileiras Odebrecht e OAS, foi encontrado morto em sua residência no distrito de Miraflores, Lima, no domingo (29 de junho de 2025). A morte, que está sob investigação, ocorreu a menos de três meses do início do julgamento de Villarán, marcado para 23 de setembro, e levanta questionamentos sobre o impacto no processo judicial do Caso Lava Jato no Peru.
Circunstâncias da Morte
Castro, de 51 anos, foi encontrado em seu apartamento na rua Madrid, em Miraflores, com um corte de aproximadamente 14 centímetros no pescoço, ao lado de dois cuchillos, segundo o relatório policial. O corpo estava no banheiro, deitado de bruços, com o braço esquerdo estendido e o direito dobrado, conforme detalhado pela Infobae. A porta do banheiro apresentava sinais de arrombamento, e a cena não exibia evidências claras de violência externa, segundo o Canal N. A Divisão de Homicídios da Polícia Nacional do Peru (PNP) e o Instituto de Medicina Legal estão investigando para determinar se a morte foi suicídio, homicídio ou sicariato, como sugeriram alguns analistas no X. O Ministério Público, por meio da Primeira Fiscalía Penal de Miraflores-Surquillo e San Borja, iniciou diligências preliminares, com o fiscal Richard Rojas Gómez coordenando o levantamento do cadáver.
Castro estava em prisão domiciliar desde 2020, após cumprir 24 meses de prisão preventiva em 2019, devido à sua participação no caso. Ele era colaborador eficaz do Ministério Público, fornecendo informações cruciais sobre o esquema de corrupção, mas seu acordo de delação não havia sido homologado devido a divergências sobre os benefícios penais e mudanças frequentes de advogados, conforme fontes do Convoca.pe.
O Papel de José Miguel Castro no Caso Villarán
José Miguel Castro, economista e braço direito de Susana Villarán, foi apontado pela Fiscalía como o segundo em comando de uma organização criminosa que teria operado na Municipalidade de Lima entre 2010 e 2014. Segundo a acusação, liderada pelo fiscal José Domingo Pérez, do Equipo Especial Lava Jato, Castro era responsável pela captação de recursos ilícitos, intermediando pagamentos de mais de US$ 10 milhões (R$ 54,6 milhões) das construtoras Odebrecht e OAS. Esses valores teriam financiado a campanha do “Não” à revocação de Villarán em 2013 e sua tentativa de reeleição em 2014.
O ex-superintendente da Odebrecht no Peru, Jorge Barata, revelou em 2019 que Castro, conhecido pelo codinome “Budián”, solicitou diretamente US$ 3 milhões para a campanha do “Não”. Desse montante, US$ 2 milhões foram pagos ao publicitário Valdemir Garreta no Brasil, e US$ 1 milhão foi entregue a Castro em Lima. Barata também confirmou que Villarán agradeceu pessoalmente pela contribuição, validando as negociações. Além disso, Castro teria gerenciado uma conta na Banca Privada de Andorra em nome de Gabriel Prado, outro ex-funcionário municipal, para canalizar os recursos.
A OAS, por sua vez, teria contribuído com US$ 7 milhões, segundo a Fiscalía, para garantir concessões como o projeto Línea Amarilla (hoje Vía Parque Rímac) e Rutas de Lima.Castro forneceu detalhes sobre intermediários, datas, montantes e destinos dos fundos, incluindo US$ 20,000 pagos à ex-deputada Anel Townsend para despesas de campanha. Sua colaboração era considerada essencial para o julgamento de Villarán, que enfrenta acusações de associação ilícita, conluio, lavagem de dinheiro, falsidade genérica e falsa declaração, com pedido de 29 anos de prisão. O próprio Castro enfrentava uma pena solicitada de 25 anos.
Impacto no Julgamento
Apesar da morte de Castro, especialistas afirmam que suas declarações e provas fornecidas como colaborador eficaz podem ser usadas no julgamento de Villarán, programado para 23 de setembro de 2025. O advogado penalista Vladimir Padilla explicou ao Perú21 que a legislação peruana permite a leitura de depoimentos prévios de colaboradores falecidos, desde que homologados, garantindo sua validade no processo. O fiscal José Domingo Pérez confirmou que Castro já havia declarado na fase de investigação, e essas informações, incluindo documentos e registros, serão apresentados no julgamento. No entanto, sua ausência como testemunha presencial pode enfraquecer a força probatória, segundo o advogado James Rodríguez, entrevistado pela Radio Nacional.
Villarán, de 75 anos, está em liberdade condicional desde maio de 2021, após cumprir prisão preventiva. Em 2019, ela admitiu ter recebido US$ 4 milhões das construtoras para a campanha do “Não”, mas nega que os valores fossem propinas, alegando que não houve contrapartidas corruptas em sua gestão. A defesa de Villarán, liderada por sua advogada, reforça que o Ministério Público deve provar as acusações de lavagem de dinheiro e outros crimes no julgamento.
Repercussão e Suspeitas
A morte de Castro gerou comoção e especulações no Peru, especialmente por ocorrer às vésperas do julgamento. O fiscal José Domingo Pérez anunciou que avalia antecipar o início do processo e reforçar a segurança de outras testemunhas, como Jorge Barata, devido à gravidade do caso. O Ministério Público lamentou a perda de Castro, descrito por Pérez como “a segunda pessoa mais importante após Villarán”.
A investigação da morte está sob responsabilidade da Divisão de Homicídios, com perícias em andamento para esclarecer se houve intervenção de terceiros. Imagens divulgadas pelo Canal N mostram o apartamento de Castro sem sinais evidentes de luta, mas a presença de dois cuchillos e a porta arrombada mantêm a possibilidade de homicídio em aberto.
Contexto do Caso Lava Jato no Peru
O Caso Odebrecht, parte do escândalo Lava Jato, é um dos maiores esquemas de corrupção da América Latina, envolvendo 12 países e pagamentos de propinas a autoridades para garantir contratos de infraestrutura. No Peru, a Odebrecht (hoje Novonor) e a OAS são acusadas de pagar mais de US$ 10 milhões para favorecer concessões como Rutas de Lima e Línea Amarilla durante a gestão de Villarán. O caso também envolve outros ex-prefeitos, como Luis Castañeda, e figuras políticas, com investigações conduzidas pelo Equipo Especial Lava Jato, liderado por Rafael Vela.