‘A Casa Verde’: Roteiro inspirado em Machado de Assis ganha toques amazônidas em Manaus

Adaptação de conto de Machado de Assis ganha leitura amazônica em Manaus.
Redação Imediato Online
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Os artistas amazonenses Tércio Silva e Rafael Ramos estão desenvolvendo o roteiro de “A Casa Verde”, uma adaptação livre do conto “O Alienista”, de Machado de Assis, com elementos da cultura e cosmologia amazônica. Previsto para ser concluído em dois meses, o projeto, contemplado pela Lei Paulo Gustavo (edital nº 01/2023), transforma as ruínas de Paricatuba, antiga leprosaria no Amazonas, no cenário fictício do hospital psiquiátrico Casa Verde. A narrativa, que mistura realismo fantástico, crítica social e saberes indígenas, é uma homenagem ao autor brasileiro e ao pensador Ailton Krenak, prometendo reposicionar a Amazônia como protagonista cultural.

Uma Adaptação com Identidade Amazônica

Inspirado no conto publicado em 1882, “A Casa Verde” reimagina a história do Dr. Simão Bacamarte, agora um médico negro e homossexual, cuja obsessão por classificar a loucura desmorona diante de seus próprios traumas. A personagem Lua, uma menina silenciada que carrega mensagens crípticas, tensiona a narrativa, enquanto elementos como formigas guias, peixes caindo do céu e rituais de cura com ervas do rio constroem uma estética de realismo fantástico. As ruínas de Paricatuba, localizadas em Iranduba (27 km de Manaus), servem como pano de fundo, evocando a memória de exclusão social da antiga leprosaria.

Tércio Silva, da Buia Teatro Company, explica que o roteiro é “uma investigação poética e política sobre os limites da razão ocidental e a força dos saberes ancestrais”. Rafael Ramos, cineasta premiado por “Manaus Hot City”, destaca a influência de Gabriel García Márquez e Isabel Allende: “É uma Amazônia fabular, onde o impossível expressa a verdade.” A obra dialoga com o pensamento de Ailton Krenak, propondo uma reconexão com o planeta como ser vivo, e mantém a ironia de Machado ao criticar o poder e a normatividade.

Detalhes do Projeto

Financiado pelo Governo do Amazonas e pelo Ministério da Cultura (MinC), via Secretaria de Cultura e Economia Criativa, o projeto está em fase de escrita, com previsão de entrega até agosto de 2025. O longa-metragem, classificado como drama simbólico/ficção amazônica, combina linguagens literária, teatral e cinematográfica. A produção ainda não tem data de filmagem confirmada, mas a escolha de Paricatuba como locação reforça o compromisso com a identidade regional.

Tércio, que estreia como roteirista de longa após atuar em “O Rio do Desejo” e na série “Aruanas”, enfatiza a importância cultural: “Queremos que a Amazônia seja linguagem, corpo, consciência, não apenas um cenário.” Rafael, formado pela Academia Internacional de Cinema (AIC) e com prêmios no Cine-PE e Mix Brasil, adiciona que o filme é “sobre delírio, mas também sobre esperança”.

Contrapartida Social

Como contrapartida da Lei Paulo Gustavo, Tércio e Rafael oferecerão uma oficina gratuita de desenvolvimento de roteiro em Manaus, voltada para estudantes, cineastas iniciantes e entusiastas. A atividade intensiva abordará estrutura narrativa, criação de personagens, construção de cenas e o uso do território como dramaturgia. A data e o local serão anunciados em breve no Instagram da Buia Teatro (@buiateatro) e da Balsa Amarela (@balsaamarela).

Contexto Cultural

O Amazonas tem se destacado no audiovisual, com produções como “A Última Floresta” (2021) e “Noites Alienígenas” (2022) ganhando prêmios internacionais. “A Casa Verde” reforça essa ascensão, apoiada pela Lei Paulo Gustavo, que destinou R$ 3,8 bilhões ao setor cultural em 2023, dos quais R$ 194 milhões para o Amazonas, segundo o MinC.

Próximos Passos

Após a conclusão do roteiro, a equipe buscará parcerias para captação de recursos e produção, visando festivais nacionais e internacionais, como a Mostra de São Paulo e o Festival de Brasília. A oficina de roteiro será realizada até o fim de 2025, ampliando o impacto social do projeto. A Secretaria de Cultura do Amazonas acompanha o desenvolvimento, com possibilidade de apoio adicional via editais futuros.

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