A boxeadora argelina Imane Khelif, de 26 anos, medalhista de ouro na categoria meio-médio (66 kg) do boxe feminino nas Olimpíadas de Paris 2024, está no centro de uma controvérsia após informações vazadas alegarem que ela possui cromossomos XY, tipicamente associados a homens. Apesar de sempre se identificar como mulher, um exame de 2023, obtido pelo portal 3 Wire Sports, indicaria a presença de cromossomos XY, segundo um médico credenciado da Índia. O Comitê Olímpico Internacional (COI) rejeitou a validade desses testes, defendendo a elegibilidade de Khelif, enquanto a Associação Internacional de Boxe (IBA), que a desqualificou do Mundial de 2023, mantém sua posição.
Origem da Controvérsia
A controvérsia começou em março de 2023, quando Khelif foi desqualificada do Campeonato Mundial de Boxe Feminino em Nova Délhi, organizado pela IBA, por não atender a critérios de elegibilidade de gênero. A IBA, liderada pelo russo Umar Kremlev, alegou que testes (não especificados) mostraram cromossomos XY e níveis elevados de testosterona, mas nunca publicou os resultados, citando confidencialidade. A desqualificação ocorreu três dias após Khelif derrotar a russa Azalia Amineva, o que levantou suspeitas de motivações políticas, já que a IBA é criticada por sua proximidade com a Rússia e pela falta de transparência. Khelif chamou a decisão de “grande conspiração” e apelou ao Tribunal Arbitral do Esporte (CAS), mas desistiu por falta de recursos para custear o processo.
Em Paris 2024, Khelif foi autorizada a competir pelo COI, que assumiu a gestão do boxe olímpico após banir a IBA em 2023 por problemas de governança e suspeitas de corrupção. O COI usou critérios de 2016, baseados no passaporte (Khelif é registrada como mulher) e certificados médicos, sem testes de gênero ou testosterona. O COI afirmou que Khelif e a taiwanesa Lin Yu-ting, também desqualificada pela IBA, são “mulheres nascidas e criadas como mulheres” e vítimas de uma decisão “arbitrária e sem devido processo”.
O Caso em Paris
Em 1º de agosto de 2024, Khelif enfrentou Angela Carini nas oitavas de final do boxe meio-médio. Após 46 segundos, Carini abandonou a luta, alegando nunca ter sentido um golpe tão forte, com o queixo deslocado e sangue nas roupas. Carini, chorando, disse “não é justo” e temeu pela própria segurança, mas evitou julgar a elegibilidade de Khelif. A cena gerou uma onda de críticas nas redes sociais, com figuras como Elon Musk, J.K. Rowling, e Donald Trump acusando Khelif de ser “homem disfarçado” ou “transgênero”, apesar de ela nunca ter se identificado como tal.
Khelif venceu o ouro ao derrotar a chinesa Yang Liu por decisão unânime em 9 de agosto, em Roland Garros, com apoio massivo da torcida argelina. Após a vitória, ela declarou: “Sou mulher, nasci mulher, vivo como mulher e compito como mulher. Minha dignidade foi restaurada.” Ela acusou a IBA de “ódio pessoal” e agradeceu ao COI por permitir sua participação.
Novas Alegações
Um relatório médico de junho de 2023, supostamente obtido pelo jornalista francês Djaffar Ait Auodia e publicado pelo Reduxx em outubro de 2024, reacendeu o debate. O documento, elaborado pelos hospitais Kremlin-Bicêtre (Paris) e Mohamed Lamine Debaghine (Argélia), indicaria que Khelif tem:
- Cromossomos XY (confirmado por teste cromossômico).
- Testículos internos (detectados por ressonância magnética).
- Ausência de útero.
- Níveis de testosterona típicos de homens.
- Suspeita de deficiência de 5-alfa redutase, uma condição de diferença de desenvolvimento sexual (DSD) que ocorre apenas em indivíduos biologicamente masculinos.
O relatório sugere que Khelif poderia ter DSD, como a síndrome de Swyer ou insensibilidade androgênica, condições em que pessoas com cromossomos XY desenvolvem características femininas devido à ausência do gene SRY (“make-male”) ou à incapacidade de processar testosterona. No entanto, esses dados não foram verificados publicamente, e o COI classificou o vazamento como “não confiável” por falta de origem confirmada. Khelif abriu um processo legal na França contra os responsáveis pelo vazamento e por assédio online, com apoio do COI, que condenou o “abuso inaceitável” contra ela.