Delegada Débora Mafra fala sobre o enfrentamento à violência contra a mulher no Amazonas e o papel das denúncias

Delegada fala sobre o enfrentamento à violência contra a mulher no Amazonas e o papel das denúncias.
Redação Imediato Online
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Manaus (AM) — A delegada Débora Mafra, especialista em direitos das mulheres e com uma década de atuação na Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher (DECCM), destacou, em entrevista ao site Imediato, o preocupante cenário da violência doméstica no Amazonas, mas também ressaltou avanços importantes no enfrentamento ao problema.

Segundo dados apresentados pela delegada, o número de atendimentos realizados pelo canal nacional de denúncias, o Ligue 180, alcançou 16.451 registros de violência doméstica no estado. A Delegacia Especializada registrou mais de 4 mil boletins de ocorrência, enquanto a Polícia Civil contabilizou mais de 9 mil medidas protetivas emitidas.

“Tudo isso acontece, gente, essas agressões na casa, na própria residência da vítima”, enfatizou Débora Mafra. Ela ressaltou que, apesar da gravidade dos números, o crescimento das estatísticas também indica um aspecto positivo: o aumento das denúncias. “Antes, quando não tinha tanta denúncia, não é que a mulher não sofria, ela não tinha coragem de denunciar, ela não tinha chance de poder falar sobre o que estava ocorrendo com ela e não tinha uma lei forte que a amparasse”, explicou.

Para a delegada, o fortalecimento de políticas públicas e de instrumentos legais, como a Lei Maria da Penha, tem proporcionado às mulheres maior segurança para romper o silêncio. “Isso é um estímulo que faz com que a mulher venha a denunciar qualquer tipo de agressão, e isso é o correto”, afirmou.

O ciclo da violência e os vínculos emocionais

Durante a entrevista, Débora Mafra comentou sobre um caso recente na cidade, em que uma mulher de 30 anos foi agredida pelo ex-companheiro, chegando a perder três dentes. Mesmo após a denúncia, a vítima escreveu uma carta que contribuiu para a soltura do agressor. A delegada explicou que esse tipo de atitude é comum em casos graves de violência doméstica.

“É bem comum, principalmente quando a violência é muito grave. A mulher tem um vínculo emocional muito grande com o agressor. Ela se sente culpada até de ter sofrido a violência”, relatou Mafra, destacando que muitas vítimas acabam internalizando a culpa devido à manipulação emocional sofrida ao longo da relação.

Ela reforçou que nem sempre a mulher que denuncia está pronta para romper com o ciclo de violência. “Nós temos que estar atentos a isso e ajudar essa vítima a conseguir colocar a cabeça no lugar, ver o que aconteceu e o que fez ela denunciar e o porquê ela está parando de denunciar.”

Mafra lembrou um caso emblemático que atendeu: “Certa vez eu atendi uma moça que, no Dia dos Namorados, recebeu uma chave de fenda próximo ao coração, foi internada, foi para a UTI. A primeira ação dela, quando se recuperou, foi também fazer uma carta de próprio punho pedindo para que soltasse o agressor.”

A delegada esclareceu que, mesmo com esse tipo de manifestação da vítima, o processo judicial não é interrompido. “Como houve lesão corporal, como houve uma violência física, não tem como a vítima opinar sobre isso. Ela pode até ajudar a soltar o agressor, mas o processo continua. Ele ainda pode ser preso até o final, ainda pode ser condenado pelo Ministério Público, que estará olhando cada passo”, explicou.

O papel das autoridades e o apoio à vítima

Débora Mafra enfatizou que o sistema de Justiça está preparado para lidar com essas complexidades emocionais das vítimas de violência doméstica. “Mesmo após a vítima ter feito essa carta, o processo continua como se nada tivesse acontecido. É somente mais um elemento para colocar no inquérito”, afirmou.

A delegada reforçou que a Lei Maria da Penha tem um olhar diferenciado para a mulher, justamente por reconhecer os vínculos emocionais que dificultam a ruptura com o agressor. “Ela pode falar que sofreu, depois falar que não sofreu e depois falar que sofreu de novo. Isso está na mão da vítima. Agora, o Ministério Público, o juiz e o delegado continuam a investigação, continuam o processo da melhor forma possível.”

Os primeiros sinais da violência

Mafra também orientou sobre os primeiros sinais que podem indicar um relacionamento abusivo. “Muito ciúme é o principal início de toda a violência. Ele quer afastar você dos seus amigos, da sua família”, alertou. Além do isolamento, a delegada citou a escalada da violência, que pode começar com agressões verbais e morais, passando para ameaças, perseguições, chantagens emocionais, violência patrimonial, sexual e, por fim, física.

“Depois ele geralmente passa para a violência patrimonial, onde começa a quebrar bens que ela gosta, como uma TV, um vestido ou até uma Bíblia para ela não ir à igreja”, exemplificou.

Por fim, Débora Mafra reforçou a importância da denúncia, seja pela própria vítima ou por pessoas próximas: “Se você tem uma pessoa do seu lado, uma mulher que esteja sofrendo esses tipos de violência e ela não tem coragem de denunciar, denuncie você pelo número 180, que é a denúncia anônima. A polícia civil vai até onde essa vítima está para conversar com ela e tentar resgatá-la do ciclo da violência.”

Foto: Reprodução Imediato

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