O novo Prefeito de Manaus tem lado, mas se consolida como o político que mais transita entre as forças do Amazonas

Entre as principais correntes que disputam o poder no Amazonas, Renato Junior busca se consolidar como um articulador político capaz de dialogar com diferentes grupos sem abrir mão de sua identidade partidária.
Redação Imediato Online
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Desde 2018, a política do Amazonas vive uma reorganização profunda. O fim da hegemonia de um único grupo político abriu espaço para novas correntes, novos atores e novas disputas pelo comando do Estado. Em 2026, esse processo chega a um ponto decisivo: não está em jogo apenas mais uma eleição, mas a reorganização das principais forças que disputam máquina, memória política, palanques nacionais, lideranças emergentes e projetos de poder.

Hoje, quatro grandes correntes organizam o tabuleiro amazonense. A primeira é a de Omar Aziz e Eduardo Braga, ligada ao campo do presidente Lula e herdeira da tradição política mais antiga do Amazonas, aquela que remonta a Gilberto Mestrinho, passa por Amazonino Mendes e chega às grandes composições que moldaram o Estado nas últimas décadas.

A segunda é a de Wilson Lima e Roberto Cidade, que dominou a máquina estadual nos últimos anos e representa uma nova geração de políticos, sustentada pelo Governo do Estado, pela Assembleia Legislativa, por prefeitos, deputados e por um discurso de centro-direita pragmático.

A terceira é a de David Almeida, que nasceu dentro desse mesmo ecossistema tradicional, mas ganhou vida própria depois que David assumiu o Governo do Amazonas com a cassação de José Melo e, mais tarde, consolidou força ao governar Manaus por dois mandatos.

A quarta é a direita, organizada principalmente no PL de Alfredo Nascimento, com nomes como Maria do Carmo e Capitão Alberto Neto, ancorada no voto conservador, no antipetismo, nas redes sociais e na força nacional do bolsonarismo.

Dentro desse cenário, Renato Junior aparece como uma peça singular. Não porque esteja acima das forças políticas. Ele não está. Renato tem lado. E deixou isso claro ao aceitar ser coordenador da campanha de David Almeida ao Governo do Amazonas.

Renato não é um prefeito neutro e nem um ator sem campo e justamente por isso sua postura chama atenção. No comando da Prefeitura de Manaus, poderia ter escolhido reproduzir a lógica do confronto permanente, transformar cada crítica em embate e cada divergência em guerra pública. Até aqui, escolheu outro caminho.

Nos últimos meses, Renato se posicionou como um prefeito de trânsito amplo. Um político que mantém lealdade ao seu grupo, mas evita fechar portas com os demais centros de poder do Estado.

O primeiro gesto veio na própria transição. Quando David Almeida renunciou à Prefeitura para disputar o Governo, a passagem de comando foi apresentada como continuidade administrativa, mas também como autonomia. David afirmou que Renato assumiria com liberdade para conduzir a gestão, sem divisão de comando. Renato respondeu prometendo dar sequência ao trabalho em andamento, sem ruptura.

Poucos dias depois, veio o primeiro teste. Sua posse na Câmara Municipal foi esvaziada por parte expressiva da oposição. Em vez de transformar a ausência em confronto, Renato respondeu dizendo que a relação com a Câmara seria harmônica e que os vereadores tinham seu telefone e poderiam pedir audiência. A resposta não elimina a tensão. Mas revela um método: brigar pode render manchete; conversar pode render governabilidade.

O mesmo padrão aparece na relação com Roberto Cidade. A corrente de Wilson Lima e Cidade é, hoje, uma das principais adversárias do campo de David Almeida na disputa estadual. Além disso, Prefeitura e Governo do Estado disputam responsabilidades sobre problemas concretos da capital, especialmente infraestrutura urbana, buracos, recapeamento, mobilidade e impactos das chuvas.

Mesmo assim, Renato esteve na posse de Roberto Cidade como governador e falou em cooperação institucional. Defendeu diálogo aberto, acima das questões políticas, “porque os problemas de Manaus não podem ficar limitados à disputa entre grupos”.

Mais tarde, ao pedir apoio do Estado para uma operação de tapa-buracos, buscou enquadrar o pedido como cooperação, não como repasse de dinheiro. Usou uma expressão simbólica: sem egos e sem vaidades.

Roberto Cidade respondeu de forma dura. Disse que a responsabilidade era da Prefeitura, citou repasses bilionários e afirmou que faltava gestão. O conflito ficou exposto. Ainda assim, Renato não parece ter rompido a ponte. A tensão existe, mas o canal institucional continua sendo preservado. Essa é a diferença entre disputa e fechamento de porta.

Com Lula, Omar Aziz e Eduardo Braga, a postura foi ainda mais clara. Durante a agenda presidencial em Manaus, Renato não tentou marcar distância ideológica do presidente. Ao contrário: acompanhou Lula, agradeceu investimentos federais, valorizou a entrega de 576 moradias no Parque das Tribos e colocou a Prefeitura à disposição para novas parcerias habitacionais. Falou em construir não apenas mais 576 unidades, mas mil, duas mil, três mil habitações.

Na agenda de investimentos do dia seguinte, novamente ao lado de Lula, Renato tratou como histórica a assinatura de obras ligadas ao Porto da Manaus Moderna, à BR-319, ao polo naval e à geração de empregos. Sua fala não foi de oposição ideológica. Foi de gestor municipal interessado em recursos, obras e presença de Brasília em Manaus.

Esse gesto tem peso político. Lula é o principal símbolo nacional de um campo diferente daquele que abriga parte expressiva da base eleitoral de David Almeida. Omar e Braga, por sua vez, integram uma corrente que também disputa espaço com David no tabuleiro estadual.
Ainda assim, Renato escolheu a aproximação institucional. Ao agradecer Eduardo Braga e pedir aplausos para Omar Aziz em agenda pública, enviou uma mensagem clara: pode ter lado, mas não pretende tratar todos os outros como inimigos.

Já a relação com a direita bolsonarista é o ponto mais sensível. Não há, até aqui, uma aproximação clara de Renato com a estrutura do PL. Pelo contrário: o PL é adversário natural do grupo de David, especialmente após a disputa municipal de 2024 e com a formação de um palanque próprio para 2026.

A direita organizada faz oposição, pressiona e ataca. Ainda assim, Renato tem evitado transformar esse conflito em guerra pessoal permanente. Quando assumiu a coordenação da campanha de David, reconheceu que os ataques contra ele aumentariam. Mas também indicou que a estratégia seria apresentar o projeto do seu grupo, não viver apenas de responder aos adversários.

Essa postura, é claro, não significa que as demais correntes políticas tenham desistido de fazer oposição a Renato Junior ou ao grupo de David Almeida. Seria uma leitura ingênua imaginar que gestos de cordialidade, agendas institucionais ou falas de cooperação eliminam interesses eleitorais, projetos de poder e disputas concretas.

O que chama atenção é outro ponto: Renato parece tentar construir canais de diálogo acima da disputa eleitoral, especialmente quando o tema envolve gestão pública, obras, recursos, infraestrutura, habitação, mobilidade ou serviços essenciais para Manaus.
Uma coisa é a disputa pelo poder eleitoral. Outra é o exercício do poder de gestão. Na política amazonense, esses dois campos quase sempre se misturam até o limite da paralisia. Quem é adversário na eleição passa a ser tratado como inimigo administrativo. Renato, pelo menos até aqui, tenta operar em outra lógica.

Em resumo, o prefeito tenta construir uma imagem diferente: a de um prefeito que não renuncia ao lado que escolheu, mas entende que governar Manaus exige atravessar fronteiras políticas. Sua postura neste período pré-eleitoral é menos a de um soldado de trincheira e mais a de um operador de pontes.

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