Manaus, AM – O estado do Amazonas, que enfrenta uma das maiores taxas de mortalidade e incidência de câncer do colo do útero no Brasil, não foi incluído entre os 12 primeiros estados a receber o novo e mais eficaz teste de biologia molecular DNA-HPV. A medida do Ministério da Saúde, anunciada como um marco para a saúde da mulher, levanta preocupações sobre a equidade no acesso a avanços diagnósticos em regiões com urgências sanitárias significativas.
O câncer do colo do útero é a terceira maior causa de mortes prematuras femininas no país e representa um desafio nacional. No Amazonas, a situação é particularmente grave, com a projeção de mais de 1.800 novos casos até 2026. A taxa de câncer do colo do útero no estado é 102% maior que a média nacional, sendo o segundo estado, atrás apenas de Tocantins, com mais casos por ano. Anualmente, o Amazonas registra cerca de 27 casos a cada 100 mil mulheres, em comparação com 9 casos em São Paulo para o mesmo parâmetro. Além disso, o índice de mortalidade é alarmante, com aproximadamente 23 mortes mensais.
Estudos recentes indicam um perceptível crescimento no número de mortes por neoplasias em mulheres no Amazonas entre 2020 e 2024, com Manaus respondendo pela maioria das notificações (69,5%). A maior parte desses óbitos (46,7%) ocorreu em mulheres com mais de 60 anos, sendo 69,5% pardas, 20,5% brancas e 5,3% indígenas. A persistência da doença está fortemente associada às dificuldades de acesso aos serviços de saúde e às desigualdades sociais e regionais. Em áreas de difícil logística, como as comunidades distantes e ribeirinhas, as mulheres enfrentam atrasos no acesso a exames e consultas, muitas vezes desistindo do processo ou chegando aos centros de referência em estágio avançado da doença. A pandemia de COVID-19 também contribuiu para um aumento significativo dos casos, devido à paralisação de atividades ambulatoriais e à descontinuidade dos cuidados de rotina.
A Nova Tecnologia DNA-HPV e a Exclusão do Amazonas
O Ministério da Saúde iniciou em 15 de agosto de 2025 a implementação do teste de biologia molecular DNA-HPV no SUS, uma tecnologia 100% nacional que detecta 14 genótipos do papilomavírus humano (HPV) antes do surgimento de lesões ou câncer, mesmo em mulheres assintomáticas. Este método moderno e inovador oferece maior sensibilidade diagnóstica, reduz a necessidade de exames e intervenções desnecessárias, e permite intervalos de rastreamento de até cinco anos, em comparação com os três anos do exame Papanicolau, que será gradualmente substituído.
Apesar dos benefícios evidentes, o Amazonas não foi contemplado na fase inicial de implementação, que abrangeu Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais, Ceará, Bahia, Pará, Rondônia, Goiás, Rio Grande do Sul, Paraná e o Distrito Federal. A meta do Ministério da Saúde é que, até dezembro de 2026, o rastreamento esteja disponível em todo o território nacional, beneficiando 7 milhões de mulheres de 25 a 64 anos por ano.
Esforços Locais no Amazonas
Enquanto aguarda a expansão da nova tecnologia, o Amazonas tem investido em iniciativas locais para combater a doença. O estado sancionou a lei que cria o Centro Avançado de Prevenção ao Câncer do Colo do Útero (Cepcolu), anexo à Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (FCecon), a principal referência oncológica na região. O Cepcolu funcionará como um hospital-dia, realizando o tratamento cirúrgico de lesões precursoras de alto grau através da conização, um procedimento para remover lesões pré-malignas e evitar a evolução para o câncer. A expectativa é que o Cepcolu realize até 3 mil conizações anualmente, um aumento significativo em relação às 500 realizadas atualmente pela FCecon, representando um “divisor de águas” no combate à doença no estado. O centro também será responsável pelo acompanhamento semestral pós-cirúrgico das pacientes por dois anos, seguindo os protocolos do Ministério da Saúde e do INCA.
Além disso, campanhas como o Março Lilás são promovidas para conscientizar sobre a importância dos exames de rotina. O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece gratuitamente o exame citopatológico (Papanicolau) nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e a vacina contra o HPV para jovens entre 9 e 14 anos, além de populações imunossuprimidas de 15 a 45 anos. O Plano Estadual de Saúde do Amazonas 2024-2027 inclui como meta a ampliação da razão de exames citopatológicos do colo do útero em mulheres de 25 a 64 anos para uma coleta a cada três anos na Atenção Primária à Saúde (APS).
Apesar desses esforços, a ausência do Amazonas na lista inicial de estados para o novo teste DNA-HPV destaca a necessidade urgente de estratégias mais equitativas e focadas nas realidades regionais para garantir que os avanços na saúde cheguem a todas as populações mais vulneráveis.