O Brasil registrou um recorde histórico na produção de motocicletas no primeiro trimestre de 2025, com 501.142 unidades fabricadas, um aumento de 14,4% em relação ao mesmo período de 2024. Esse é o maior volume para o período desde 2012, segundo dados da Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo). A Zona Franca de Manaus, maior polo de produção de duas rodas fora do eixo asiático, foi responsável pela maior parte desse total, com fábricas como a da Honda produzindo até 6.500 motos por dia, ou uma a cada 19 segundos.
Crescimento impulsionado por demanda e crédito
O aquecimento do mercado reflete o uso crescente das motocicletas como alternativa de transporte e fonte de renda, especialmente em serviços de entrega por aplicativo. O autônomo Deivison Cota, por exemplo, adquiriu uma moto para trabalhar e complementar a renda: “Vou usar pra ir pro trabalho e, nas horas extras, fazer transporte por aplicativo.” O segurança Elias Barreto também aproveitou o acesso facilitado ao crédito para comprar sua primeira moto financiada, destacando a praticidade e economia.
As vendas no varejo acompanharam o ritmo, com 474.000 motos emplacadas no trimestre, um crescimento de 9,6% em relação a 2024. A Abraciclo projeta que o ano fechará com 1,88 milhão de motos produzidas e cerca de 2 milhões emplacadas, um aumento de 7,5% e 7,7%, respectivamente, em comparação com 2024. “A indústria está se preparando para voltar ao patamar de 2 milhões de motos por ano”, afirmou Marcos Bento, presidente da Abraciclo.
Zona Franca de Manaus: Motor do setor
A Zona Franca de Manaus (PIM) é o coração da produção de motocicletas no Brasil, abrigando 96% das motos vendidas no país. O polo, que inclui gigantes como Honda, Yamaha e a recém-chegada CFMoto, beneficia-se de incentivos fiscais, como isenção de IPI e redução de PIS/COFINS, que tornam a produção competitiva. Em 2024, o PIM já havia registrado um crescimento de 11,1%, com 1.748.317 unidades produzidas, o melhor desempenho em 14 anos.
A alta demanda por mobilidade individual, impulsionada por fatores como o aumento de entregas por aplicativos e os altos preços de combustíveis, tem sustentado o setor. Lourival Barros, diretor de produção de uma das fabricantes, destacou que as fábricas estão expandindo sua capacidade para atender o mercado: “Estamos adequando a operação para que as motos cheguem em tempo hábil aos clientes.”
Exportações e desafios
Embora o mercado interno absorva a maior parte da produção (98%), as exportações cresceram 2,8% no trimestre, com 9.643 unidades enviadas principalmente para Argentina, Estados Unidos e Canadá. No entanto, o setor externo enfrenta desafios, como a retração de 17,6% nas exportações no primeiro quadrimestre, devido à instabilidade econômica em mercados vizinhos.
O setor também enfrenta obstáculos internos, como a estiagem severa no Amazonas em 2024, que dificultou o transporte de matéria-prima. Apesar disso, a indústria superou as adversidades com planejamento estratégico, mantendo o ritmo de produção. A alta de 35% no interesse por motos zero-quilômetro, conforme dados da Webmotors, reflete o otimismo do mercado.
Impactos socioeconômicos
As motocicletas são essenciais para a mobilidade e a economia, especialmente para as classes C, D e E, que representam 85% dos consumidores. Além de serem uma alternativa acessível, com baixo custo de manutenção e combustível, as motos geram cerca de 15 mil empregos diretos no PIM. A chegada de novas montadoras, como a indiana Bajaj, que inaugurou uma fábrica em Manaus com capacidade para 20 mil motos por ano, reforça o potencial do setor.
No entanto, desafios macroeconômicos, como inflação e juros altos, podem frear o crescimento em 2025. A Abraciclo destaca que o setor depende da estabilização do crédito e da economia para atingir a meta de 2 milhões de unidades anuais nos próximos anos.