Mala do milhão: entenda como empresários ligados à Adail Pinheiro foram presos pela PF

Empresários ligados a político são presos transportando mais de R$ 1 milhão em dinheiro vivo no aeroporto de Brasília, o que aponta para um possível esquema de lavagem de dinheiro e contratos públicos irregulares.
Redação Imediato Online
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Na última terça-feira (20), três empresários de Manaus — César de Jesus Glória Albuquerque, Erick Pinto Saraiva e Vagner Santos Moitinho — foram presos em flagrante pela Polícia Federal (PF) no Aeroporto Internacional de Brasília, após serem flagrados transportando R$ 1.258.431 em dinheiro vivo, escondidos em maços dentro de três malas. A prisão, que coincidiu com o início da Marcha dos Prefeitos, desencadeou uma investigação que aponta para um suposto esquema envolvendo lavagem de dinheiro, contratos públicos irregulares, saques indevidos de auxílio emergencial e possíveis vantagens indevidas a agentes públicos. Após audiência de custódia, a Justiça liberou os suspeitos, mas determinou o uso de tornozeleiras eletrônicas e a proibição de deixar Brasília ou se aproximar do evento.

Prisão no Aeroporto e Contradições

O trio desembarcou do voo 3747 da Latam, vindo de Manaus, com passagens de retorno marcadas para a mesma noite, sugerindo a intenção de uma viagem rápida. Durante uma fiscalização de rotina, agentes da PF encontraram as cédulas, majoritariamente em notas de R$ 200, dentro das malas. Questionados, os suspeitos afirmaram que o dinheiro seria usado para comprar insumos em Goiás e quitar dívidas de suas empresas, que mantêm contratos com prefeituras no Amazonas. No entanto, contradições em seus depoimentos — como a incapacidade de especificar fornecedores ou destinatários dos pagamentos — levaram à prisão em flagrante por lavagem de dinheiro.

Ligações Políticas e Suspeita de Corrupção

A investigação da PF revelou conexões diretas dos empresários com políticos do Amazonas, especialmente no município de Presidente Figueiredo. Vagner Santos Moitinho é pai do vereador Lucas Souza Moitinho (União Brasil), eleito em 2024. Registros do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) mostram que Vagner doou R$ 1 mil para a campanha do filho, enquanto César Albuquerque, dono da CJ Comércios e Serviços, recebeu R$ 2,4 mil da mesma campanha por aluguel de uma caminhonete Hilux. Erick Saraiva, sócio da Saraiva Comércio de Confecção, foi pago em R$ 93,5 mil pela campanha do prefeito de Itacoatiara, Mário Abrahim (Republicanos), por materiais publicitários.

A coincidência da prisão com a Marcha dos Prefeitos reforçou a suspeita de que o grupo poderia estar em Brasília para realizar pagamentos de propina a agentes públicos. A PF apura se os valores transportados têm relação com negociações ilícitas envolvendo contratos municipais, especialmente após a Prefeitura de Coari anunciar, em abril de 2025, um contrato de R$ 3,3 milhões com as empresas de César e Erick para fornecimento de vestuário à Secretaria Municipal de Saúde, incluindo itens como tênis, botas e chapéus.

Empresas de Fachada e Auxílio Emergencial

A investigação revelou indícios de que as empresas dos suspeitos podem ser de fachada. A CJ Comércios e Serviços, de César Albuquerque, possui mais de 40 atividades econômicas registradas no CNPJ, abrangendo desde comércio de alimentos até serviços funerários, arquitetura e manutenção de embarcações. Apesar de movimentar R$ 2,5 milhões, a empresa não tem funcionários registrados, e seu endereço declarado, na BR-174, corresponde a uma parada de ônibus na comunidade Nova Jerusalém, conforme imagens do Google Maps (agosto de 2024). Em 2021, a empresa foi contratada pela Prefeitura de Presidente Figueiredo por R$ 130 mil para manutenção de botes aquáticos, serviço incluído em seu CNAE.

Além disso, os três empresários receberam Auxílio Emergencial durante a pandemia, apesar de declararem rendas significativas. César sacou R$ 4,9 mil, Erick R$ 5,2 mil (devolvendo R$ 3 mil), e Vagner também foi beneficiário, com valores não divulgados. Esses saques reforçam as suspeitas de irregularidades financeiras.

Medidas Judiciais e Próximos Passos

Na quarta-feira (21), a 1ª Vara Criminal de Brasília determinou a soltura dos suspeitos, mas impôs medidas cautelares: uso de tornozeleiras eletrônicas por três meses, proibição de deixar Brasília e de se aproximar da Marcha dos Prefeitos em um raio de 200 metros. A PF solicitou a quebra de sigilo telefônico e bancário para rastrear a origem do dinheiro e identificar outros envolvidos. A investigação também analisa os contratos das empresas com prefeituras, especialmente em Coari e Presidente Figueiredo, para verificar possíveis desvios.

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