Os resultados do Estudo Internacional de Progresso em Leitura (PIRLS) escancaram uma verdade difícil, mas necessária: as escolas brasileiras, em sua maioria, não estão conseguindo ensinar adequadamente a leitura — uma habilidade fundamental para qualquer processo de aprendizagem. A falha é sistêmica e atinge principalmente os estudantes em situação de vulnerabilidade socioeconômica, perpetuando desigualdades históricas no acesso ao conhecimento.
A análise dos microdados feita pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede) mostra que quase metade (49%) dos alunos mais pobres do 4º ano do ensino fundamental apresenta desempenho “abaixo do básico” em leitura. Esse índice é mais do que um número — é um alerta sobre a ineficiência das práticas pedagógicas e da política educacional vigente.
A disparidade é gritante: enquanto 83,9% dos estudantes de maior renda atingem um nível adequado de leitura, apenas 26,1% dos mais pobres conseguem o mesmo. Com uma diferença de 58 pontos percentuais, o Brasil lidera negativamente o ranking das nações participantes com maior desigualdade de resultados. O dado evidencia que o sucesso escolar ainda é determinado pela renda familiar, e não pelo que se aprende em sala de aula.
A participação do Brasil no PIRLS, em 2021, avaliou mais de 4.900 estudantes em 187 escolas públicas e privadas. Os resultados divulgados em 2023 colocam o país diante de uma realidade desconfortável: apesar de uma pequena parcela atingir níveis competitivos internacionalmente, a maioria está sendo deixada para trás — especialmente os alunos das escolas públicas e de famílias de baixa renda.
Segundo Ernesto Martins Faria, diretor-fundador do Iede, é preciso abandonar a ideia de que o problema está apenas nos alunos ou em suas famílias:
“Não podemos mais aceitar um cenário onde o direito à educação de qualidade é privilégio de poucos. A leitura é uma competência essencial. Quando falhamos nesse ponto, falhamos em todo o projeto educacional.”
De acordo com o estudo, o domínio da leitura não diz respeito apenas à disciplina de Língua Portuguesa. Trata-se de uma habilidade estruturante que impacta todas as áreas do conhecimento. Alunos que não sabem interpretar textos com fluidez e profundidade também não conseguem avançar em matemática, ciências, história ou geografia. Estão sendo privados da possibilidade de aprender com autonomia, de pensar criticamente e de se desenvolver plenamente.
A escola brasileira precisa urgentemente reavaliar suas práticas de alfabetização e ensino da leitura. Não é possível tolerar que, em pleno século XXI, milhões de crianças saiam da escola sem dominar o básico. A desigualdade educacional não é apenas uma consequência da pobreza — é também uma causa dela. E ela começa quando a escola falha naquilo que deveria ser sua missão principal: ensinar a ler, entender e pensar.