O Brasil passou a ocupar o topo do ranking global de taxas reais de juros nesta sexta-feira (31), segundo levantamento do economista Jason Vieira, do site MoneYou. O movimento reflete a combinação entre o aumento de 1 ponto percentual da Selic pelo Banco Central do Brasil (BCB), na última quarta-feira (29), e o corte de 3 pontos nos juros argentinos pelo BC do país vizinho, anunciado na quinta-feira (30). Com isso, a taxa real brasileira subiu para 9,18%, ultrapassando a argentina, que caiu de 9,36% para 6,14%.
Contexto do ranking
Até a última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), o Brasil já figurava como o segundo colocado no ranking de juros reais, atrás apenas da Argentina. O corte argentino, no entanto, alterou a dinâmica: o país reduziu sua taxa básica para 75% em meio a uma inflação anualizada de 94,8%, resultando em um juro real de 6,14%. Enquanto isso, a Selic brasileira subiu para 13,25%, e a taxa real – calculada descontando a inflação projetada – atingiu 9,18%, a maior entre as principais economias.
Trajetória da Selic e projeções
O Copom elevou a Selic em 1 ponto percentual na quarta-feira (29), mantendo o ritmo de aperto monetário para conter a inflação, que encerrou 2022 em 5,79%, acima do centro da meta (3,5%). O comitê também sinalizou nova alta de 1 ponto na próxima reunião, em março, o que levaria a taxa a 14,25%. O mercado, porém, projeta um ciclo ainda mais agressivo: o Relatório Focus indica expectativa de Selic a 15% até maio, pressionada por riscos fiscais e incertezas sobre o teto de gastos.
Implicações econômicas
Taxas reais elevadas podem atrair investidores estrangeiros em busca de retornos, fortalecendo o câmbio. Por outro lado, encarecem o crédito, impactando consumo e investimentos domésticos. Para Jason Vieira, autor do estudo, o cenário reforça o desafio do BCB em equilibrar o combate à inflação com o risco de estrangular a atividade econômica. “O Brasil está em um caminho delicado: precisa manter a credibilidade da política monetária, mas sem aprofundar a estagnação”, analisa.
Comparativo global
Enquanto economias desenvolvidas, como EUA e Zona do Euro, mantêm juros reais negativos ou próximos de zero, países emergentes enfrentam pressões maiores. A Argentina, por exemplo, tenta equilibrar juros altos com uma inflação descontrolada, enquanto o México (2,5%) e a África do Sul (1,8%) têm taxas reais bem abaixo da brasileira.
Próximos passos
A decisão de março do Copom será crucial para definir o rumo da política monetária. Especialistas alertam, porém, que a trajetória de alta pode ser revista caso o governo federal não sinalize compromisso com o ajuste fiscal, já que a percepção de risco impacta diretamente as expectativas de inflação e juros.