Silves e Itapiranga enfrentam ameaça de colapso com possível interdição da Funai e MPF

Municípios amazonenses enfrentam dilema entre exploração de gás e proteção de povos indígenas isolados.
Redação Imediato Online
ouça este conteúdo
00:00 / 00:00
1x

AMAZONAS | Os municípios de Silves e Itapiranga, no interior do Amazonas, estão no centro de uma polêmica que coloca em confronto o desenvolvimento econômico local e a proteção de possíveis povos indígenas isolados. Uma proposta de interdição da região, liderada pelo Ministério Público Federal (MPF) e baseada em alegações da Funai, gerou apreensão nas comunidades, que temem consequências sociais e econômicas devastadoras.

No coração do debate está o Complexo do Azulão, operado pela Eneva, um empreendimento de R$ 5,8 bilhões que explora gás natural e impulsiona a economia da região. O gás extraído abastece, entre outros, a usina térmica Jaguatirica II, responsável por cerca de 70% da energia elétrica de Roraima. A interrupção da exploração poderia gerar um apagão no estado vizinho e comprometer o abastecimento local.

A interdição proposta, que inclui restrição de uso nas áreas de exploração de gás e nas rodovias AM-330 e AM-363, baseia-se em relatos de ONGs e uma fotografia de 2023 que supostamente confirma a presença de indígenas isolados. Entretanto, uma análise pericial realizada pelo perito forense Allan Reis apontou manipulações na imagem. Além disso, uma expedição da Funai entre março e abril de 2024 não identificou povos indígenas na área, embora tenha encontrado um artefato que sugere a “possível” presença de comunidades isoladas.

Impactos econômicos e sociais

A ameaça de interdição mobilizou autoridades e moradores de Silves e Itapiranga, que destacam os avanços proporcionados pela exploração do gás. Nos últimos três anos, o município de Silves teve sua arrecadação mensal elevada para R$ 2,2 milhões, impulsionada por royalties, ICMS e ISS. Esse aumento permitiu investimentos em saúde, como a inauguração de uma policlínica moderna, e na educação, com a construção de uma escola técnica voltada à qualificação profissional.

Em Itapiranga, embora ainda não haja exploração de gás, a cidade se beneficia indiretamente pelo aumento do fluxo econômico. A demanda por comércio, hotéis e serviços transformou o município, que registra hoje uma população “flutuante” de cerca de 4 mil trabalhadores vindos de outras regiões.

No entanto, a interdição colocaria tudo isso em risco. Estima-se que 1.500 trabalhadores diretos e 3.500 indiretos sejam afetados, com o fechamento de empresas e a consequente redução na arrecadação municipal. Segundo o prefeito de Silves, Paulino Grana, a medida resultaria em um “verdadeiro caos econômico e social”.

Mobilização contra a interdição

Durante uma sessão na Câmara Municipal de Silves, realizada em 25 de novembro, vereadores, lideranças locais e moradores manifestaram oposição à proposta de interdição. Uma moção de repúdio está sendo preparada pela Câmara, e o prefeito Paulino Grana afirmou que o Executivo e o Legislativo enviarão uma carta aberta à Funai pedindo a reconsideração da medida.

“Estamos tendo a oportunidade de emprego e renda, mas querem prejudicar nosso município e nosso estado. Essa interdição seria desastrosa”, afirmou o vereador Thomaz Silva, presidente da Câmara.

A preocupação também chegou à Assembleia Legislativa do Amazonas. O deputado estadual Sinésio Campos destacou os reflexos da possível paralisação do Complexo do Azulão para o estado de Roraima e para a integração econômica da região. “Sem o gás do Amazonas, Roraima enfrentará um apagão em poucos dias”, alertou.

Desafios de conciliar progresso e proteção ambiental

O caso de Silves e Itapiranga ilustra um dilema recorrente na Amazônia: como equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e os direitos das populações tradicionais? Enquanto a população local defende a continuidade das atividades que transformaram a região, críticos apontam para a necessidade de cautela diante da possibilidade de violação dos direitos indígenas.

A decisão final sobre a interdição está nas mãos do MPF e da Funai, mas os impactos do caso vão muito além de Silves e Itapiranga. Eles colocam em discussão a política de desenvolvimento sustentável na Amazônia e a forma como decisões tomadas em Brasília afetam as comunidades locais.

Foto: Divulgação / Imediato

Carregar Comentários