Dia Internacional da Mulher: A luta contra o machismo e o feminicídio

Dados preocupantes sobre a luta contra o machismo e o feminicídio no Brasil, especialmente em Manaus.
Redação Imediato Online
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MANAUS-AM | Uma mulher, quando reconhece sua força, se torna uma fonte inesgotável de inspiração. O dia 8 de março é conhecido como o Dia Internacional da Mulher, e muita gente acredita que está é uma data de comemoração. Porém, a verdade é que ele é marco de luta, um dia que celebra todas as vitórias que as mulheres conseguiram ao longo das últimas décadas.

A luta contra a violência machista e o feminicídio ganha a cada dia uma dimensão mais ampla. A força da luta e da mobilização faz com que cada vez mais mulheres denunciem e se organizem em prol de uma vida sem violência.

Dois minutos é o intervalo de tempo para que mais uma mulher seja vítima de violência doméstica no Brasil; onze para que a próxima seja estuprada; duas horas para que outra seja morta. Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública ainda apontam que, em 88,8% dos casos de feminícidio, o autor é o companheiro ou ex-companheiro. Entre as vítimas, 61% delas são mulheres negras.

No ano passado, Manaus registrou 25,3 mil casos de violência doméstica. A maioria desses crimes teve mulheres como vítimas. Elas responderam por 96,9% dos casos que chegaram aos Distritos Integrados de Polícia Civil. Foram 24,5 mil queixas entre situações de lesão corporal, difamação, violação de domicílio e outros tipos de ocorrência.

Os dados são da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM). Enquanto a polícia recebeu 24.553 casos de violência doméstica tendo mulheres como vítimas, os homens registraram 775 casos ao longo de todo o ano passado. Em comum, ambos os gêneros sofrem majoritariamente com ameaça, injúria e lesão corporal. O levantamento engloba mais de 20 tipos de crimes sofridos no ambiente doméstico.

A professora de Educação Física e faixa preta de judô, Denise Oliveira, afirma que já recebeu vários relatos de alunas que estavam sofrendo abusos dentro de casa. “Eu procuro sempre orientar elas a procura alguém de confiança para contar, e que vá com tal pessoa ao conselho tutelar ou na delegacia, tenho pais de alunas que não falam mais comigo hoje por conta disso”.

“Nós mulheres temos muito ainda a conquistar. Vivemos sim em uma sociedade machista, o que faz com que muitas mulheres não procurem a delegacia para denunciar, Porque sempre vão falar “mas ela procurou aquilo, é o tamanho de vestido e coisas do tipo”, para sempre coibir a coragem das mulheres que denunciam os abusos sejam eles quais forem”, concluiu.

Denise Oliveira é professora de Educação Física faixa preta de judô 5o. Dan com três títulos de campeã mundial master. Hoje faz parte da comissão feminina de judô da federação de judô do Amazonas e também do Conselho da comissão de graus da Federação de Judô do Amazonas.

Tentativa de Feminicídio

Joyce Pantoja, 25 anos, estudante universitária e residente na cidade de Manaus, é uma jovem vítima de tentativa de feminicídio, sofrida por seu ex-companheiro. Um relacionamento de 4 anos que seria regado de muito amor e companheirismo, porém o que era um conto de fadas tornou-se um pesadelo.

“Durante quatro anos de relacionamento ocorreram vários conflitos, mas eu sempre dizia “isso é coisa de casal, ele faz isso porque me ama”. Porém tudo se agravou quando engravidei do meu filho, logo após o nascimento, meu ex-companheiro me pressionava todos os dias para que eu largasse meu emprego, recusei várias vezes tal decisão, até que chegou ao ponto dele segurar meu braço com força a fim de me fazer acreditar que isso seria o melhor para nossa família, afinal tínhamos um filho agora, dito e feito, essa foi a primeira ordem que obedeci. O tempo foi passando e fui me tornando dependente fisicamente e mentalmente, não me arrumava mais, pois ele dizia que isso era coisa de mulher que caçava macho, com o passar do tempo eu não via mais sentido para sair de casa, apenas com miseras palavras ele entrava na minha mente”, informou Joyce.

Depois de me privar do mundo ao ponto de não deixar eu visitar minha própria mãe. As agressões começaram após eu descobrir que ele estaria se envolvendo com outra pessoa, tentei tirar satisfações e foi ai que veio o primeiro soco na boca, puxão de cabelo e mordidas nos braços e perna, “louca, uma vagabunda que não servia para nada” era assim que ele me descrevia. Chegou um ponto que tudo que eu queria era me sentir livre, resolvi terminar e foi ai que ele também resolveu da um ponto final. O primeiro golpe foi um chute, que atingiu meu abdômen, mesmo estando com o meu filho no colo ele não pensou duas vezes e me arrastou pela cozinha e continuou desferindo golpes, achei que aquele seria o meu fim. Apesar da escuridão que me tomava conta conseguir gritar por socorro várias vezes, os golpes só cessaram quando dois vizinhos invadiram minha casa e arrancaram ele de cima de mim, “Ele era um príncipe encantado, mas no final se torunou o meu pior pesadelo”, afirmou.

Em um relato corajoso sobre sua história, Joyce conta como teve início seu processo de isolamento, que caracteriza um dos estágios do ciclo da violência doméstica. Ela também relata como, tempos depois, finalmente identificou todas as violências a que foi submetida durante o relacionamento, inclusive a sexual.

A Delegada de Polícia, Titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher – DCCM, Débora Mafra, afirma que o caso mais comum é a não aceitação da separação. O agressor se acha “dono” da mulher, não deixando ela gerir a própria vida. Então ele prefere vê-la morta, do que feliz e separada dele.

O art. 121, § 2º, VI do Código Penal traz a qualificadora de feminicídio para o crime de homicídio: matar uma mulher por razões da condição de sexo feminino. Já os crimes passionais podem ser definimos como sendo aqueles cometidos por paixão, ou seja, por uma motivação emocional. Mas o feminicídio, muitas vezes, é também um crime passional. Porém o inverso não é verdadeiro, pois alguém pode matar por paixão ao seu time de futebol e isso não é feminicídio.

“A vítima de violência doméstica, tem dificuldade em se ver como vítima. No início ela traduz a violência psicológica e moral, como ciúmes, cuidado e amor, ela não se sente violentada, mesmo que atos deles a machuque psicologicamente, ela sempre arruma desculpas para as ações violentas do agressor. Isso tem mudado, pouco a pouco, pela informações veiculadas na mídia, fazendo com ela se perceba vítima, logo no início. Afirmou a delegada.

Machismo

Maria Garcia, 29 anos, casada à 7 anos, residente na cidade de Manaus, é uma mulher vítima de um relacionamento regado pelo machismo.

“No começo era uma maravilha, ele prometia tanta coisa. Mas antes queria apenas um namoro normal, mas ele começou a me proibir de ver os amigos, queria saber pra onde iria e que horas voltaria.
Via a situação sem maldade, pensava que era apenas o jeito dele. Ele começou a falar que estava na hora de sair de casa, pois na época tinha 21 anos, concordei nisso mas não queria aquele relacionamento e deixei bem claro que sairia de casa para viver a minha vida sozinha sem ele, para a minha infelicidade naquele momento descobri que estava grávida, tentei esconder dele mas a minha cunhada contou, fiquei com medo, pois meus pais tinham uma certa rigidez. Foi uma confusão para sair de casa, levei o primeiro tapa do meu pai em toda minha vida”, contou Maria.

“Minha gestação não foi uma maravilha, tenho vergonha de falar para os outros que eu e meu companheiro brigávamos constante, mesmo gestante ele me batia, ficava trancada em casa enquanto ele trabalhava. Voltei a ver minha família depois do nascimento da minha filha, algumas coisas mudaram. Nos aproximamos da minha família, ele tem algumas brincadeiras que sei que é brincadeira saudável de bater, até mesmo com a minha mãe. Para ele tenho que ficar em casa, cuidar das crianças e dele. Tem dias que olho no espelho e queria me sentir feliz novamente, pensei até ir pra academia, salão mas ele diz que não preciso”, concluiu

De acordo Débora Mafra, as consequências do machismo em nossa sociedade é a desigualdade de direitos entre homens e mulheres, altos índices de violência doméstica, de assédio e de estupro, objetificação da mulher, diferença salarial, menosprezo da mulher e muitos outros efeitos. O Amazonas como todo o Brasil ainda retrata o machismo histórico que venceremos com a educação de meninos e meninas, demonstrando que temos os mesmos direitos e que a mulher precisa ser respeitada em todos os aspectos.

“O machismo insere no agressor a falsa sensação de impunidade, pois ele acredita que “lavou a sua honra com sangue “ e que toda a sociedade vai aplaudir seu ato, pois não teria outra forma de agir. Por isso, eu digo, que necessitamos de uma educação que demonstre que o feminicídio é crime e que não existe nada que justifique o assassinato de uma mulher”, concluiu a delegada.

Fatores do porque a mulher não deixa o companheiro na primeira agressão, de acordo com a delegada da mulher:

1 – Muitas vezes ela não identifica o ato violento, como violência, ela tende a desculpar o agressor e se culpar por tal ato
2 – Medo do agressor
3 – Medo do julgamento social e familiar
4 – Medo de que ninguém acredite no seu relato, de ser desacreditada
5 – Medo de que aleguem que ela está dando um relato falso para obter algum tipo de “vantagem”
6 – Dependência do agressor (afetiva, financeira, patrimonial, familiar, emocional, etc.)
8 – Não conhecer os seus direitos
9 – Acreditar na impunidade do agressor após a denúncia, acreditando que nada vai acontecer ao agressor
10 – Não possuir meios de denunciar
11 – Dificuldades de acesso a delegacia, sistema de justiça e à rede de atendimento e proteção
12 – Falta de autoestima
13 – Preocupação com os filhos/a família, e com sua imagem, não querendo ser a “destruidora de seu próprio lar”
14 – Entendimento de que é seu dever manter o casamento e a família, independentemente de seu sofrimento
15 – Vergonha de admitir que foi violentada e agredida por seu companheiro
16 – Acreditar que só seria daquela vez, de que não aconteceria novamente, de que o agressor vai “mudar”
17 – Ser aconselhada a não denunciar (pela família e pelos “amigos”)
18 – Acreditar que foi sua culpa pelo acontecimento da agressão/da violência
19 – Não saber que aquele ato é crime ou contravenção penal
20 – Não saber que existe casa abrigo, caso seja necessário, ela acredita que não tem para onde ir com os filhos

Origem e história do Dia Internacional da Mulher
No dia 8 de março de 1917 cerca de 90 mil operárias russas percorreram as ruas reivindicando melhores condições de trabalho e de vida, ao mesmo tempo que se manifestavam contra as ações do Czar Nicolau II. Esse evento, que deu origem ao Dia Internacional da Mulher, ficou conhecido como “Pão e Paz”. Isso porque as manifestantes também lutaram contra as dificuldades decorrentes da Primeira Guerra Mundial (1914-1918).

No dia 25 de março de 1911 um incêndio na fábrica Triangle Shirtwaist Company matou 146 mulheres, dentre as 500 que trabalhavam lá, desse número, cerca de 20 eram homens. A maioria das funcionárias que morreram eram imigrantes judias e algumas tinham apenas 14 anos.

Vale notar que o local não estava preparado para um incêndio, visto que não possuía extintores, o sistema de iluminação era a gás e era permitido as pessoas fumarem.

Após o trágico incidente, a legislação de segurança para incêndios foi reformulada e as leis trabalhistas foram revisadas e muitas conquistas foram adquiridas.

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