MANAUS-AM | Nesta sexta-feira (13), durante um evento presencial na Banca do Largo, no Largo São Sebastião, Centro de Manaus, ocorre um dos lançamentos mais aguardados dos últimos anos, de uma das mais importantes obras sobre a inserção da Amazônia no mundo Ocidental – Relação do famosíssimo e muito poderoso rio chamado Marañon –, com a tradução do professor doutor Auxiliomar Silva Ugarte. O evento teve início às 18h e contou com a presença de autores famosos como Zemaria Pinto, Wilson Nogueira, Jorge Bandeira, além do público de alunos e professores de História da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).
SOBRE O LANÇAMENTO
O evento foi planejado e executado seguindo as recomendações de proteção ao Covid-19, respeitando distanciamento entre o público e exigindo o uso de máscaras. A editora Valer novamente realizou um grande evento com excelência e respeito ao público presente, de dezenas de pessoas, dentre elas estudantes de história, que aproveitaram o momento disponibilizado pela editora.
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A TRADUÇÃO
Em dezembro de 1541, o explorador espanhol Francisco de Orellana, famoso como conquistador do Império Inca, juntou 59 homens num bergantim, e partiu de um acampamento militar, para se tornar o descobridor do rio Amazonas. Nesse período, a Amazônia ainda estava longe de ser inventada, mas a história daquela viagem desbravadora correu o mundo, graças aos escritos do frei dominicano Gaspar de Carvajal, encarregado da liturgia na embarcação e de deixar para a posteridade os registros da expedição.
Quase cinco séculos depois, aquele diário de bordo, tantas vezes publicado em vários idiomas, acaba de ganhar uma nova e talvez definitiva versão em língua portuguesa. O que o leitor do século XXI tem disponível, a partir de agora, pela primeira vez, é a versão completa do texto Relación del famosíssimo y muy poderoso rio llamado el Marañon… (Relação do famosíssimo e muito poderoso rio chamado Marañon. Editora Valer, 2021, 368 páginas).
A relação, aqui no sentido clássico, de relato, é apenas uma de três versões, e a menos conhecida, do testemunho constituído por Carvajal (1504-1584) da expedição de que participou, sob as ordens do capitão Francisco de Orellana, entre 26 de dezembro de 1541 e 11 de setembro de 1542. A versão está inserida na obra de outro cronista espanhol do século XVI, Gonzalo Fernández de Oviedo y Valdés (1478-1557), a Historia general y natural de las Indias, islas y tierra firme del Mar Oceano, que chegou a ser publicada parcialmente na Itália, em 1555, mas só foi editada integralmente na década de 1850, na Espanha.
A tradução de Ugarte representa um importante avanço em relação às outras duas versões mais conhecidas do relato de Carvajal em língua portuguesa, a do estudioso Cândido Melo-Leitão (1886-1948), contida no livro Descobrimentos do rio das Amazonas, de 1941, baseado na versão do espanhol José Toribio de Medina, e a tradução do etno-historiador Antonio Porro, publicada em 1993, na coletânea As crônicas do rio Amazonas, com o título Relação do descobrimento do rio Amazonas, de Gaspar de Carvajal, na versão de Oviedo y Valdés.
Embora seja considerada parcial, foi a versão de Antonio Porro que inspirou Auxiliomar Ugarte a apresentar à Universidade Federal do Amazonas, onde leciona, um projeto de pesquisa para uma nova tradução dos relatos de Carvajal. Porro tornou o texto do cronista espanhol quinhentista, segundo Ugarte, mais acessível e esclarecedor, por meio de notas explicativas, contribuindo, inclusive, para a ampliação do conhecimento da história indígena da Amazônia.
As dezenas de notas bibliográficas reunidas no livro tornam a leitura mais instigante e prazerosa. Ali está a maior parte das notas elaboradas por Antonio Porro, e também algumas da versão de Toribio de Medina, esta utilizada por Melo-Leitão, o que dá ao leitor a oportunidade de comparar detalhes importantes de uma versão em relação à outra.
AUXILIOMAR
Para Auxiliomar Ugarte, as notas ajudam a esclarecer aspectos da nomenclatura geográfica empregada por frei Gaspar de Carvajal, a nomenclatura botânica, também, para esclarecer sobre determinados frutos que ele observou ou sobre os quais foi pretensamente informado. Com a ajuda das notas, tem-se verdadeiras aulas sobre o uso de pimentas (axi) na culinária indígena, o cultivo do milho (mahiz) ou da mandioca (yuca), em escala doméstica, mas que mostra o estágio de desenvolvimento das nações indígenas, interrompido com a chegada dos europeus.
Além das notas bibliográficas, a nova tradução da Relação de Carvajal vem enriquecida por um anexo documental, contendo cartas, petições e todos os autos de nomeação e tomadas de posse produzidos durante a viagem, e mais um estudo introdutório, no qual Auxiliomar Ugarte prepara o leitor para a viagem que irá empreender no tempo e no espaço, com a dimensão do deslumbramento desses primeiros viajantes, à medida em que a expedição avança rio abaixo. O conceito Amazônia, como o entendemos hoje, começou a se desenhar ali.
No fim da viagem, depois de nove meses de penúria, fome e mortes, resultado dos ataques sistemáticos de vários povos indígenas, principalmente depois de passarem pelo rio Negro, onde hoje está localizada a cidade de Manaus, frei Gaspar de Carvajal ainda se perguntava que nome teria aquele rio com medidas tão extravagantes e uma foz como jamais fora vista. Seria o Huyapari ou ainda o Marañon, questionou, sem saber que ajudaria a cunhar o nome definitivo do rio que, no futuro, seria reconhecido como o maior rio de todo o planeta, com seus 6.992 quilômetros de extensão.
Foi chamado de “Mar Dulce”, por Pinzon, ao passar por seu estuário, em 1500, e “Rio de Orellana”, depois dessa expedição inédita, até receber seu nome definitivo, Amazonas, provavelmente por sugestão do rei Carlos V, após ouvir, do próprio Orellana, o relato sobre os ataques que a expedição sofreu de mulheres guerreiras assemelhadas, na visão de Carvajal, àquelas da mitologia grega.
Auxiliomar Ugarte não espera atrair apenas o leitor especializado, antropólogos, historiadores, arqueólogos e literatos, como disse, mas também os leitores comuns que venham a encontrar no livro um conjunto de informações antes não disponíveis sobre a Amazônia.